terça-feira, 18 de outubro de 2016

Tragédias e Esperanças - Terceira Parte IV

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel

A vida real sempre é prosaica, sem fantasia nem sonhos.
Assim decorre a existência das personagens deste livro, na tela viva das realidades nuas e dolorosas do ambiente terrestre.
Os que atingem determinadas posições sociais, bem como os que se aproximam do crepúsculo da vida fragmentária da Terra, poucas novidades têm a contar, com respeito ao curso de cada dia.
Há um período na existência do homem, em que lhe parece não mais haver a precisa pressão psíquica do coração, a fim de que se lhe renovem os sonhos e as aspirações primeiras, figurando-se a sua situação espiritual cristalizada ou estacionaria. No íntimo, não há mais espaço para novas ilusões ou reflorescimento de velhas esperanças, e a alma, como que em doloroso período de expectação e forçado silêncio, queda-se no caminho, contemplando os que passam, presa aos cordéis da rotina, das semanas uniformes e indiferentes.
Estamos vivendo, agora, o ano 57, e a vida dos atores deste drama doloroso apresenta-se quase invariável no desdobramento infindo dos seus episódios comuns e angustiosos.
Apenas uma grande modificação se fizera na residência de Calpúrnia.

Plínio Severus, nas suas radiosas expressões de vitalidade física, já havia recebido as maiores distinções por parte das organizações militares que garantiam a estabilidade do Império. Longas e periódicas permanências nas Gálias e na Espanha lhe haviam angariado honrosíssimas condecorações, mas, no seu íntimo, a vaidade e o orgulho haviam proliferado intensamente, não obstante a generosidade do seu coração.
Os primeiros ciúmes ásperos da esposa fizeram-se acompanhar de consequências nefastas e dolorosas.
Aos criminosos propósitos de Saul juntaram-se as pérfidas confidências das amigas mentirosas, e Flávia Lentúlia, longe de gozar a ventura conjugal a que tinha direito pelos seus elevados dotes de coração, descera, sem sentir, dados os seus ciúmes desmesurados, aos tenebrosos abismos do sofrimento e da provação.
Para um homem da condição de Plínio, era muito fácil a substituição do ambiente doméstico pelas festividades ruidosas do circo, na companhia de mulheres alegres, que não faltavam em todos os lugares da metrópole do pecado.
Em breve, o carinho da esposa foi substituído pelo falso amor de numerosas amantes.
Debalde procurou Calpúrnia interpor seus bons ofícios e carinhosos conselhos, e, em vão, prosseguia a jovem esposa do oficial romano no seu martírio imperturbável e silencioso.
As raras queixas de Flávia eram guardadas pelo coração generoso da mãe do seu marido, ou, então, confiadas ao espírito do pai, em confidências amarguradas e penosas.
Públio Lentulus, compreendendo a importância da cooperação feminina na regeneração dos costumes e no reerguimento do lar e da família, incitava a filha ao máximo de resignação e tolerância, fazendo-lhe sentir que a esposa de um homem é a honra do seu nome e o alimento da sua vida e que, enquanto um marido se perverte no torvelinho das paixões desenfreadas, escarnecendo de todos os bens da vida, basta, às vezes, uma lágrima da mulher para que a paz conjugal volte a brilhar no céu sem nuvens do afeto puro e recíproco.
Para o espírito de Flávia, a palavra paterna tinha foros de realidade insofismável e ela buscava amparar-se nas suas promessas e nos seus conselhos, julgados preciosos, esperando que o esposo voltasse, um dia, ao seu amor, entre as bênçãos do caminho.
Enquanto isso, Plínio Severus dissipava no jogo e nas folganças uma verdadeira fortuna. Sua prodigalidade com as mulheres tornara-se proverbial nos centros mais elegantes da cidade, e poucas vezes buscava o ambiente familiar, onde, aliás, todos os afetos se conjugavam para esclarecer-lhe docemente o espírito desviado do bom caminho.
A morte do velho pretor Sálvio Lentulus, antes do ano 50, obrigara a família de Públio e os remanescentes de Flamínio aos protocolos sociais junto de Fúlvia e da filha, por ocasião das homenagens prestadas às cinzas do morto que, envolto no mistério da sua passividade resignada e incompreensível, havia passado pelo mundo.
Bastou esse ensejo para que Aurélia retomasse a oportunidade perdida. Um olhar, um encontro, uma palavra e o filho mais moço de Flamínio, enamorado das belezas pecaminosas, restabeleceu o laço afetivo que um amor santificado e puro havia destruído anteriormente.
Em breve, ambos eram vistos com olhares significativos pelos teatros, pelos circos ou pelas grandes reuniões esportivas da época.
De todas essas dores, fizera Flávia Lentúlia o seu calvário de agonias silenciosas, dentro do lar que a sua fidelidade dignificava. Nas suas meditações silenciosas, muitas vezes deplorou os antigos desabafos de ciúme injustificável, que constituíram a primeira porta para que o marido se desviasse dos sagrados deveres em família; mas, no seu orgulho de patrícia, ponderava que era muito tarde para qualquer arrependimento dela, considerando, intimamente, que o único recurso era aguardar a volta do esposo ao seu coração fiel e dedicado, com o máximo de humildade e paciência. Nos seus instantes de contristação, escrevia páginas amarguradas e luminosas, pelos elevados conceitos que traduziam, ora implorando a piedade dos deuses, em súplicas fervorosas, ora estereotipando as íntimas angústias em versos comovedores, lidos tão somente pelos olhos de seu genitor que, a chorar de emoção, considerava, muitas vezes, se a desventura conjugal da pobre filha não era igualmente uma herança singular e dolorosa.
Por volta do ano 53, desaparecia em trágicas circunstâncias, nos escuros braços da morte, uma das figuras mais fortes desta história.
Referimos-nos a Fúlvia que, dois anos após o falecimento do companheiro, acusava as mais sérias perturbações mentais, além de inquietantes fenômenos orgânicos, provenientes de passados desvarios.
Feridas cancerosas devoravam-lhe os centros vitais e, por dois anos a fio, o corpo emagrecido era forçado às mais penosas e incômodas posições de repouso, enquanto os olhos inquietos e arregalados dançavam nas órbitas, como se nas suas alucinações fosse compelida à vidência dos quadros mais sinistros e tenebrosos.
Nessas ocasiões, não encontrava a dedicação da filha, que não soubera educar, sempre atarefada nos seus constantes compromissos de festas, encontros e representações sociais numerosas.
Mas a misericórdia divina, que não abandona os seres mais desditosos, dera-lhe um filho carinhoso e compassivo para as dores expiatórias.
Emiliano Lúcios, o marido de Aurélia, era desses homens dignos e valorosos, raros na paciência e nas mais elevadas virtudes domésticas.
Noites e noites sucessivas, velava pela velhinha infeliz, que as dores físicas castigavam impiedosamente com o azorrague de suplícios atrozes.
Nos seus últimos dias, vamos ouvir-lhe as palavras desconexas e dolorosas. Noite alta, quando as próprias escravas descansavam, subjugadas pela fadiga e pelo sono, parecia que seus ouvidos de louca se aguçavam, espantosamente, para ouvir os ruídos do invisível, dirigindo impropérios às suas antigas vitimas, que voltavam das mais baixas esferas espirituais para rodear-lhe o leito de sofrimento e morte. Olhos desmesuradamente abertos, como se fixassem visões fatídicas e horrorosas, exclamava a pobre velhinha abraçando-se ao genro, no auge das suas frequentes crises de medo e desesperação inconsciente:
- Emiliano!... - exclamava em atitudes de pavor supremo. – Este quarto está cheio de seres tenebrosos!... Não percebes? Ouve bem...
Ouço-lhes os impropérios rijos e as sinistras gargalhadas!... Conheceste Sulpício Tarquinius, o grande lictor de Pilatos?... Ei-lo que chega com os seus legionários mascarados de treva!... Falam-me da morte, falam-me da morte!... Socorre-me, filho meu!... Sulpício Tarquinius tem um corpo de dragão que me apavora!...
Crises de soluço e lágrimas sucediam-se a essas observações angustiosas.
- Acalma-te, mãe! - exclamava o militar, consternado até às lágrimas.
- Tenhamos confiança na bondade infinita dos deuses!...
- Ah!... os deuses! - gritava agora a infeliz, em histéricas gargalhadas - os deuses... – onde estariam os deuses desta casa infame? Emiliano, Emiliano, nós é que criamos os deuses para justificar os desvarios de nossa vida! O Olimpo de Júpiter é uma mentira necessária ao Estado... Somos uma caveira enfeitada na Terra com um punhado de pó!... O único lugar que deve existir, de fato, é o inferno, onde se conservam os demônios com os seus tridentes no braseiro!... Ei-los que chegam em falanges escuras!...
E, apegando-se fortemente ao peito do oficial, gritava disparatadamente, como se buscasse ocultar o rosto, de sombras ameaçadoras:
- Nunca me levareis, malditos!... Para trás, canalhas!... Tenho um filho que me defende de vossas investidas tenebrosas!...
Emiliano Lúcios acariciava bondosamente os cabelos brancos da desventurada senhora, incitando-a a implorar a misericórdia dos deuses, de modo a balsamizarem-se-lhe os rudes padecimentos.
De outras vezes, Fúlvia Prócula, como se tivesse a consciência despertada por um raio divino, dizia, mais calma, ao filho que o destino lhe havia dado:
- Emiliano, estou aproximando-me da morte e preciso confessar-te as minhas faltas e grandes deslizes! Perdoa-me, filho, se tamanhos trabalhos te hei proporcionado! Minha existência misérrima foi uma longa esteira de crimes, cujas manchas horrorosas não poderão ser lavadas pelas próprias lágrimas da enfermidade que ora me conduz aos impenetráveis segredos da outra vida! Nunca, porém, consegui ponderar as amarguras terríveis que me esperavam. Hoje, nas pesadas sombras d'alma, sinto que minha consciência se tisna do carvão apagado do fogo das paixões nefastas que me devoraram o penoso destino!... Fui esposa desleal, impiedosa, e mãe desnaturada...
Quem se apiedará de mim, se houver uma claridade espiritual após as cinzas do túmulo? Deste leito de loucura e agonia desesperada, vejo o desfile incessante de fantasmas hediondos, que parecem esperar-me no pórtico do sepulcro!... Todos profligam meus crimes passados e mostram se jubilosos com os padecimentos que me arrastam à sepultura!
Sem uma crença sincera, sinto-me entregue a esses dragões do imponderável, que me fazem evocar o passado criminoso e sombrio!...
Uma torrente de lágrimas de compunção e arrependimento seguia-se a esses instantes vertiginosos, de raciocínio e lucidez.
Emiliano Lúcios afagava-lhe, com carinho, a face rugosa, imergindo se ele mesmo em cismas dolorosas.
Aquele quadro lancinante era bem o fim tempestuoso de uma existência de deslizes clamorosos.
Sim... ele tudo compreendia agora. A rebeldia da esposa, a sua incompreensão, os atritos domésticos, aquela sede insaciável de festas ruidosas em companhia de afetos que não eram os dele, deviam ser os frutos amargos de educação viciada e deficiente. Mas, seu coração estava cheio de generosidade sem limites. Espírito valoroso, compreendia a situação, e quem compreende perdoa sempre.
Uma noite em que a doente manifestava crises acentuadas e profundas, o bondoso oficial ordenou que as servas se recolhessem.
A pobre louca falava sempre, como se fora tocada de energia inesgotável e incompreensível.
Copioso suor inundava-lhe a fronte, tomada de febre alta e constante.
- Emiliano - gritava ela desesperadamente -, onde está Aurélia, que não busca velar à minha cabeceira nas vésperas da morte? Como as falsas amizades de minha vida, terá ela também horror do meu corpo?
- Aurélia - explicou generosamente o oficial - precisava desobrigar se hoje de um compromisso com as amigas, na organização de alguns serviços sociais!
- Ah! - exclamou a demente, em sinistras gargalhadas - os serviços sociais... os serviços sociais!... Como pudeste crer nisso, filho meu? Tua mulher, a estas horas, deve estar ao lado de Plínio Severus, seu antigo amante, em algum lugar suspeito desta cidade miserável!...
Emiliano Lúcios fez o possível para que a infeliz dementada não prosseguisse em suas revelações terríveis e impressionantes; mas Fúlvia continuava o libelo tremendo e doloroso:
- Não, não me prives de continuar... - prosseguia desesperadamente.
- Ouve-me ainda! Todas as minhas acusações representam a criminosa realidade... Muitas vezes, a verdade está com aqueles que enlouqueceram!... Fui eu própria que induzi minha infeliz filha aos desvios conjugais... Plínio Severus era o inimigo que ela precisava vencer, na qualidade de mulher... Facilitei-lhe o adultério, que se consumou sob este teto!... Certifica-te, filho meu, da enormidade das minhas faltas!...
Horroriza-te, mas perdoa!... E vigia tua mulher para que não continue a trair-te com as suas perfídias torpes, e não venha um dia a apodrecer, lamentavelmente, como eu, num leito de sedas perfumosas!...
O generoso militar acompanhava, boquiaberto e aflito, aquelas revelações assombrosas.
Então a esposa, além de não o compreender no seu idealismo, ainda o traia vergonhosamente, no próprio ambiente sacrossanto do lar?
Emoções dolorosas represavam-se-lhe no coração, mas, possivelmente, todas aquelas palavras não passavam de simples delírio febril, na demência incurável. Uma dúvida horrível e impiedosa aninhara-se-lhe no coração angustiado. Algumas lágrimas umedeceram-lhe os grandes olhos tristes, enquanto a enferma dava uma trégua às penosas revelações.
Dai a minutos, porém, com voz estentórica, continuava:
- E Aurélia? Que é feito de Aurélia que não vem? Por onde andará minha pobre filha criminosa e infiel? Amanhã, meu filho, hei-de confiar-te os infames segredos da nossa existência desventurada.
Alguém, todavia, penetrara no aposento contíguo, cautelosa e silenciosamente. Era Aurélia, que voltava de uma festividade ruidosa, onde o vinho e os prazeres haviam jorrado em abundância.
Depois de atravessar a porta próxima, ainda ouviu as últimas palavras da mãe, no auge da febre e da desesperação doentia. Ela, que ouvira as tristes revelações de pouco antes, considerou que a doente, no dia imediato, haveria de cumprir a terrível promessa e, num relance, examinou todas as probabilidades de execução da ideia tenebrosa que lhe passara pela mente criminosa e infeliz. Seus olhos pareciam vidrados de cólera, sob o azorrague de um pensamento mórbido, que lhe aflorara repentinamente no coração frio e impiedoso.
Despiu os trajes da festa, reintegrando-se nos aspectos interiores do lar, e abriu uma nova porta, dirigindo-se ao leito materno, onde acariciou a mãe fingidamente, enquanto o esposo incompreendido a contemplava, de cérebro fervilhante e dolorido, sob o domínio das dúvidas mais acerbas.
- Mãe, que é isso? - perguntou, afetando uma preocupação imaginária. - Estás cansada... precisas repousar um pouco.
Fúlvia fitou-a profundamente, como se um clarão de lucidez lhe houvesse clareado repentinamente o espírito abatido. A presença da filha tranquilizava de algum modo o seu coração dorido e a consciência dilacerada. Sentou-se com esforço, no leito, afagou os cabelos da filha, como sempre costumava fazer na intimidade, deitando-se em seguida e parecendo com boa disposição de repousar
Emiliano Lúcios retirou-se da cena, considerando que sua presença já não era necessária.
Mas Aurélia continuava a falar com o seu fingido carinho:
- Queres, mãe, uma dose do calmante para o repouso preciso?
A pobre louca, na sua inconsciência espiritual, fez um sinal afirmativo com a cabeça. A jovem encaminhou-se ao seu aposento privado e, retirando minúsculo tubo de um dos móveis prediletos, deixou pingar algumas gotas numa pequena taça de sedativo, monologando: - "Sim!... um segredo é sempre um segredo... e só a morte pode guardá-lo convenientemente!..."
Caminhou, sem hesitação, para o leito materno, onde, por mais de dois anos, jazia a infeliz, devorada pelo câncer e atormentada pelas visões mais sinistras e tenebrosas.
Num relance, o horrível envenenamento estava consumado.
Ministrada a poção corrosiva e violenta, Aurélia determinou, então, que duas escravas velassem o sono da enferma, como de costume, ao regressar das noitadas ruidosas, esperando o resultado da ação criminosa e injustificável.
Em duas horas, a enferma apresentava os mais evidentes sinais de sufocação sob a ação do corrosivo, que constituía mais um daqueles filtros misteriosos e homicidas da época.
Ao chamamento aflito das servas, todas as pessoas da casa se colocaram a postos, dado o penoso estado da enferma.
Emiliano Lúcios contemplou-lhe os olhos, que se iam apagando no véu da morte, e debalde procurou fazer que a agonizante lhe dissesse ainda uma palavra. Seus membros frios foram-se enrijando devagarinho e da boca começou a escapar-lhe espuma rósea.
Em vão foram chamados os entendidos da medicina, naqueles derradeiros instantes. Naquela época, nem os esculápios conheciam os segredos anatômicos do organismo, nem havia polícia técnica para averiguar as causas profundas das mortes misteriosas. O envenenamento de Fúlvia correu por conta das moléstias incompreensíveis que, durante muitos meses, lhe haviam minado todos os centros de vitalidade.
Contudo, aquela agonia rápida não passou despercebida a Emiliano, que juntou mais uma dúvida penosa aos amargos pensamentos que lhe negrejavam o foro íntimo.
Aurélia buscou representar, do melhor modo, a comédia da sentimentalidade em tais circunstâncias, e depois das cerimônias simplificadas e rápidas, em vista da imediata decomposição cadavérica, que forçou a incineração em breves horas, o antigo lar do pretor Sálvio Lentulus tornou-se o abrigo de dois corações que se odiavam mutuamente.
Se a esposa infiel, logo após os primeiros dias de luto, retornava à sua existência de regalados prazeres, Emiliano Lúcios nunca pôde esquecer as revelações de Fúlvia, nas vésperas do seu desprendimento, envolvendo-se, então, num véu de tristeza que lhe cobriu o coração por mais de dois anos.
Em 54, subia Domício Nero ao poder, fazendo-se acompanhar de uma depravada corte de áulicos perversos e de concubinas tão numerosas quão desalmadas.
Muito tarde, reconheceu Agripina a inconveniência de sua atitude maternal obrigando o imperador Cláudio a anuir ao casamento de sua filha Otávia com aquele que, mais tarde, iria eliminar-lhe a própria vida com os maiores requintes de perversidade.
O Fórum e o Senado receberam, tremendo, a sombria notícia da proclamação do novo César pelas legiões pretorianas, não tanto por ele, mas porque sabiam, de antemão, que aquele príncipe ignorante e cruel ia tornar-se um fácil joguete dos espíritos mais ambiciosos e mais perversos da corte romana. 
Ninguém, todavia, ousou protestar, tal a série de crimes tenebrosos, perpetrados imponentemente, para que Domício Nero atingisse os bastidores do supremo poder.
No ano 56, o envenenamento do jovem Britanicus punha arrepios de terror em todos os patrícios.
Medidas ignominiosas foram postas em prática para humilhar os senadores do Império, que não conseguiram efetivar os seus protestos formais. Todas as famílias mais importantes da cidade conheciam que, diante de si, tinham os filtros venenosos de uma Locusta, a tirania e a perversidade de um Tigelinus, ou o punhal de um Aniceto.
A morte inesperada de Britanicus, porém, provocara certo descontentamento, dando azo a que se manifestassem alguns espíritos mais valorosos.
Entre esses, encontrava-se Emiliano Lúcios, que se viu logo em sérias perspectivas de banimento, tornando-se vigiado pelos inúmeros esbirros do Imperador.
O generoso oficial buscou recolher-se o mais que lhe era possível, evitando a possibilidade de conflitos. Recrudesceram as suas angústias íntimas e as suas meditações tornaram-se mais profundas e dolorosas...
E, assim, certa vez, às primeiras horas de uma noite tranquila, quando se recolhia ao lar, contrariamente aos seus hábitos mais antigos, notou que o aposento da esposa estava cheio de vozes animadas e alegres. Observou que Aurélia e Plínio se embriagavam no vinho de seus venenosos prazeres e, olhos traduzindo incoercível espanto, viu que a esposa o traía no próprio tálamo conjugal.
Emiliano Lúcios sentiu que espinho mais agudo lhe penetrava o coração sensível e generoso, ao verificar, por si mesmo, aquela realidade cruel. Teve ímpetos de chamar o amante ao campo da honra para morrer ou eliminar-lhe a vida, mas considerou, simultaneamente, que Aurélia não merecia tal sacrifício.
Enojado de tudo que se referia à sua época e sentindo-se vencido nas desventuras do seu penoso destino, o nobre oficial retirou-se para o antigo gabinete do pretor Sálvio, onde estabelecera a sede de seus trabalhos diurnos e, tomado de sinistra e dolorosa resolução, abriu velho armário onde se alinhavam pequenos frascos, retirando um deles, de configuração especial, a fim de satisfazer os amargos propósitos do seu espírito exausto.
Diante da taça de cicuta, o cérebro dorido perdeu-se, por minutos, em pungentes conjeturas, mas, estudando intimamente todas as suas probabilidades de ventura, ponderou, no auge do desespero, que, à traição da mulher, às ameaças de proscrição e de banimento ou à possibilidade de um ataque nas sombras, era preferível o que ele considerava o consolo derradeiro da morte.
Num instante, sem que os amigos espirituais pudessem demovê-lo do intento terrível, tal a subitaneidade do gesto desesperado e irrefletido, sorveu o conteúdo de pequena taça, descansando depois a jovem cabeça sobre os braços, estirado num leito próprio do triclínio, mas adaptado ao seu gabinete antigo, abarrotado de mármores e pergaminhos preciosos.
A morte horrível não se fez esperar muito, e, no círculo numeroso de suas relações de amizade, enquanto Aurélia representava nova farsa de pesares imaginários, comentava-se o suicídio de Emiliano, não como consequência direta de suas profundas desilusões domésticas, mas como fruto da tirania política do novo imperador, sob cujo reinado tantos crimes foram cometidos, diariamente, nas sombras.
Sozinha, agora, no seu campo de ação, Aurélia entregou-se livremente aos seus desvarios, amplificando as suas inclinações nocivas e procurando reter, cada vez mais, junto de si o homem de suas preferências, objeto de suas desenfreadas ambições.
Em casa dos Lentulus e dos Severus, a vida continuava a desfiar o rosário das desventuras.
Havia mais de cinco anos, em 57, que Saul de Gioras se encontrava definitivamente instalado em Roma, sem haver desistido dos seus desejos e propósitos a respeito da esposa do amigo e benfeitor. Consolidada a sua fortuna no comércio de peles do Oriente, não perdia ele as mínimas oportunidades para evidenciar a excelência de sua situação material à mulher cobiçada de longos anos; Flávia Lentúlia, porém, fizera da existência um calvário de resignação, comovedora e silenciosa.
A vida pública do marido era, para o seu espírito, um prolongado e doloroso suplício moral. Sobre o assunto, fazia Saul, de vez em quando, referências indiretas, no intuito de chamar-lhe a atenção para o seu afeto, mas a pobre senhora nele não via outra individualidade, além de um amigo, ou irmão. Debalde, o moço judeu testemunhava-lhe sua admiração pessoal, em gestos de extrema gentileza, buscando oferecer-lhe a sua companhia; mas, a verdade é que os apelos de sua alma impetuosa e apaixonada não encontravam. ressonância no coração daquela mulher, que enfeitava com a dor a dignidade do matrimônio.
Tocado pelas expressões do seu dinheiro, Araxes animava-lhe as esperanças sem o deixar esmorecer nos seus perigosos instintos.
Plínio Severus só vinha ao lar de vez em quando, alegando serviços ou viagens numerosas para justificar a continuidade de sua ausência. Mal se precatava ele de que as despesas astronômicas lhe arruinavam, pouco a pouco, as possibilidades financeiras, conduzindo igualmente os seus familiares ao esgotamento de todos os recursos.
Algumas vezes, mantinha colóquios afetuosos com a esposa, a quem se sentia preso pelos laços de afeição eterna e profunda, mas as seduções do mundo eram já muito fortes no seu coração, para serem extirpadas. No íntimo, desejava voltar à calma do lar, à vida carinhosa e tranqüila; mas, o vinho, as mulheres e os ambientes ostentosos eram a permanente obsessão do seu espírito combalido; outras vezes, embora amando a esposa ternamente, não lhe perdoava a circunstância da sua superioridade moral, irritando-se contra a própria humildade que ela testemunhava em face dos seus desatinos, e regressava novamente aos braços de Aurélia, como vítima indecisa entre as forças do bem e do mal.
No ano 57, a saúde de Calpúrnia, abalada em extremo, obrigara a família a reunir-se em torno do leito da matrona generosa. Pela primeira vez, após o casamento do irmão, voltou Agripa Severus de suas longas aventuras em Massília e em Avênio, para junto de sua mãe enferma e abatida, atendendo-lhe os sentidos apelos. Reencontrar Flávia Lentúlia e participar com ela das claridades do ambiente doméstico, foi o mesmo que reavivar velho vulcão adormecido.
A um golpe de vista, compreendeu a situação conjugal de Plínio, procurando substituir-lhe o afeto junto da esposa desvelada e meiga.
Desejava confessar-lhe todo o seu amor ardente e infeliz, mas guardava no coração sublime respeito fraternal por aquela mulher, que confiava nele como irmão muito amado. Foi assim que, nas alternativas de melhora da velha enferma, Flávia lhe aceitou a companhia para distrair-se nalguns espetáculos da rumorosa cidade da época.
Tanto bastou para que Saul envenenasse os acontecimentos, supondo nessas expansões inocentes uma ligação menos digna, que lhe enchia de pavorosos ciúmes o coração violento e irascível.
Na primeira oportunidade, insinuou a Plínio Severus todas as suas cavilosas suspeitas, arquitetando, com a sua imaginação doentia, situações e acontecimentos que jamais se verificaram. O esposo de Flávia era desses homens caprichosos, que, organizando um circulo de liberdade ilimitada para si próprio, nada concedem à mulher, nem mesmo no terreno das afeições desinteressadas e puras. Dessa forma, Plínio Severus começou a acatar a palavra de Saul, concedendo-lhe aos conceitos insensatos o mais largo crédito, no seu foro íntimo. Ele, que deixara a companheira afetuosa ao abandono e que, por largos anos, dera azo às mais penosas amarguras domésticas, sentiu-se, então, ralado de ciúmes acerbos e inconcebíveis, passando a espionar os menores gestos do irmão e a desconfiar dos mais secretos pensamentos da esposa, esperando que a moléstia irremediável de sua mãe tivesse uma solução na morte, que se presumia para breve, a fim de se pronunciar com mais força na reivindicação dos seus direitos conjugais.
Entrava o ano de 58, com amarguradas perspectivas para as nossas personagens.
Um fato, porém, começava ferir a atenção de todas as personagens desta história real e dolorosa.
A dedicação de Lívia à sua velha amiga doente era um exemplo raro de amor fraterno, de carinho e bondade indefiníveis. Oito meses a fio, sua figura franzina e silenciosa esteve a postos dia e noite, sem descanso, junto ao leito de Calpúrnia, provando-lhe com exemplos a excelência dos seus princípios religiosos
Muitas vezes, a nobre matrona considerou, intimamente, a superioridade moral daquela doutrina generosa, que estava no mundo para levantar os caídos, confortar os enfermos e os tristes, disseminando as mais formosas esperanças com os desiludidos da sorte, em confronto com os seus velhos deuses que amavam os mais ricos e os que oferecessem os melhores sacrifícios nos templos, e aquele Jesus humilde e pobre, descalço e crucificado, de que lhe falava Lívia em suas palestras íntimas e carinhosas.
Calpúrnia estava plenamente modificada, às vésperas da morte. A convivência contínua da velha amiga renovara-lhe todos os pensamentos e crenças mais radicadas. Tratava melhor as escravas que lhe beiravam o leito e pedira a Lívia lhe ensinasse as preces do profeta crucificado em Jerusalém, o que ambas faziam de mãos postas, quando os aposentos da enferma ficavam silenciosos e desertos. Nesses instantes, a viúva de Flamínio Severus sentia que as dores abrandavam, como se bálsamo suave lhe refrescasse os centros íntimos de força; cessavam as dispneias dolorosas e a respiração quase se normalizava, como se profundas energias do plano invisível lhe reanimassem o coração escleroso e fatigado.
Ao espírito de Públio não passavam despercebidos esses sintomas de modificação moral da velha matrona, nem tampouco o nobre procedimento da esposa, que nunca mais repousou, desde o instante em que a vira inerme e exausta. Os sofrimentos da vida haviam igualmente modificado muito a estrutura da sua organização espiritual e, como nunca, sentia o senador a necessidade de se reconciliar com a esposa, para enfrentar os invernos penosos da velhice que se aproximava.
Não só ele, como Lívia, já haviam ultrapassado meio século de existência, e agora, que tão bem conhecia a vida e os seus dolorosos mecanismos de aperfeiçoamento, se sentia apto a perdoar todas as faltas da esposa, no pretérito, considerando que os seus vinte e cinco anos de martírio moral, no sacrossanto ambiente doméstico, bastavam para redimi la das faltas que, porventura, houvesse cometido, nas ilusões da mocidade, em terra estranha, conforme supunha em suas falsas observações, filhas ainda da calúnia que lhe destruíra a ventura e a paz de uma existência inteira.
Nos primeiros dias do ano 58, os padecimentos de Calpúrnia foram subitamente agravados, esperando-se a cada momento o penoso desenlace.
Os filhos e os mais íntimos lhe rodeavam o leito, grandemente comovidos, embora reconhecessem a necessidade de repouso para aquele corpo doente e esgotado. 
Na antevéspera da morte, a veneranda senhora pediu que a deixassem sozinha com o senador, por algumas horas, alegando a necessidade de confiar a Públio Lentulus algumas disposições "in extremis".
Atendida, imediatamente, vamos encontrá-los em íntimo colóquio, como se estivessem juntos pela última vez, para decisão de assuntos importantes e supremos.
Públio, ainda em pleno vigor de sua compleição física, tinha os olhos rasos d'água, enquanto a velha matrona o contemplava, deixando transparecer um clarão de viva lucidez nos olhos calmos e profundos.
- Públio - começou ela, gravemente, como se aquelas palavras fossem as suas últimas recomendações -, para os espíritos de nossa formação não pode existir o receio da morte, e é por esse motivo que deliberei falar-te nas minhas horas derradeiras...
- Mas, minha boa amiga - respondeu o senador, franzindo a testa e esforçando-se por dissimular a comoção que lhe ia n'Alma, lembrando-se de que, nas mesmas circunstâncias, lhe falara FIamínio pela última vez, entre as paredes daquele quarto -, somente os deuses podem decidir de nossos destinos e só eles conhecem os nossos últimos instantes!...
- Não duvido dessas verdades - acudiu a valorosa patrícia -, mas, tenho a certeza de que as minhas horas na Terra chegam a termo e não quero levar para o túmulo o remorso de uma falta que reconheço haver cometido há mais de dez anos...
- Uma falta? Nunca... Vossa vida, Calpúrnia, foi sempre um dos mais raros exemplos de virtude nesta época de transição e degenerescência dos nossos mais belos costumes...
- Agradeço-te, meu grande amigo, mas tua gentileza não me exime da penitência perante o teu espírito, afirmando que há mais de dez anos errei num julgamento, pedindo-te hoje recebas a minha retificação, talvez tardia, mas ainda a tempo de santificarmos, com o mais justo respeito, uma vida de sacrifícios e de abnegações!...
Públio Lentulus adivinhou que se tratava de sua mulher e, com voz embargada pela comoção e pelas lágrimas, deixou que a velha amiga continuasse, de olhos enxutos, manifestando o mais subido valor moral em face da morte que se aproximava.
- Refiro-me a Lívia - continuou Calpúrnia, em tom comovido -, a respeito de quem tive a infelicidade de te transmitir uma suposição errônea e injusta, cortando-lhe a última possibilidade de ventura na Terra; mas, a morte renova as nossas concepções da vida e os que estão prestes a abandonar este mundo possuem uma visão mais clara de todos os problemas da existência.
Hoje, meu amigo, digo-te, de alma serena, que tua esposa é imaculada e inocente...
O senador sentia que o pranto lhe brotava espontaneamente dos olhos, mas estava intimamente confortado por saber que a venerável amiga confirmava, agora, as convicções que o tempo lhe aumentara quanto à nobilíssima companheira de sua existência.
- Não to digo simplesmente por uma questão de egoísmo pessoal, em penhor de agradecimento pelas supremas dedicações de Lívia para comigo no decurso desta dolorosa enfermidade - continuou ela, valorosamente. - Um espírito do nosso estofo deve estar com a verdade acima de tudo, e esta minha confissão não se verifica tão somente pelas observações da minha fraqueza toda humana.
A realidade, todavia, meu amigo, é que, desde aquela noite em que me pediste opinasse sobre tua esposa e minha desvelada amiga, sinto o espinho de uma dúvida cruel no meu coração dilacerado. Lívia foi sempre a minha melhor companheira, e contribuir para a sua desventura, injustificadamente, era aos meus olhos a suprema falta de toda a vida...
Por onze anos, orei constantemente e ofereci numerosos sacrifícios nos templos, para que os deuses me inspirassem a verdade sobre o assunto e, por todo esse tempo, tenho esperado pacientemente a revelação do céu... Só hoje, porém, me foi dado obtê-la, já nos pórticos do sepulcro!...
É possível que minha pobre alma, já semi liberta, esteja participando dos incompreendidos mistérios da vida do além-túmulo e talvez seja por isso que, hoje pela manhã, vi a figura de Flamínio neste quarto!... Era muito cedo e eu estava só, com as minhas meditações e as minhas preces!...
Nesse ínterim, a palavra da enferma tornara-se entrecortada de profundas emoções que a dominavam, enquanto Públio Lentulus chorava, em doloroso silêncio.
- Sim... - prosseguiu Calpúrnia, depois de longa pausa -, no meio de uma luz difusa e azulada, vi Flamínio a estender-me os braços carinhosos e compassivos... No olhar, observei-lhe a mesma expressão habitual de ternura e, na voz, o timbre familiar, inesquecível... Avisou-me que dentro de dois dias penetrarei os mistérios indevassáveis da morte, mas essa revelação do meu fim próximo não me podia surpreender... porque, pari mim... que há tantos anos vivo no meu exílio de saudades e sombras... acrescido das continuadas angústias da enfermidade longa e dolorosa... a certeza da morte constitui supremo consolo... Confortada pelas doces promessas da visão, as quais me auguravam esse brando alívio para breves horas... perguntei ao espírito de Flamínio sobre a dúvida cruel que me dilacerava há tantos anos... Bastou que a argüísse mentalmente, para que a radiosa entidade me dissesse em alta voz... meneando a cabeça num gesto delicado... como a exprimir infinita e dolorosa tristeza: "Calpúrnia, em má hora duvidaste daquela a quem deverias amar... e proteger como a filha querida e carinhosa... porque Lívia... e uma criatura imaculada e inocente..."
Nesse instante... - continuou a enferma, com alguma dificuldade -, tal foi a impressão dolorosa de minh'alma... com a surpresa da resposta... que não mais lobriguei a visão carinhosa e consoladora... como se fosse repentinamente chamada às tristes realidades da vida prática.
A velha matrona tinha os olhos marejados de lágrimas, enquanto o senador se entregava silenciosamente ao pranto de suas comoções penosas.
Longos minutos estiveram ambos assim, na atitude de quem dava curso ao remorso e ao sofrimento...
Afinal, foi ainda a valorosa patrícia quem rompeu o pesado silêncio, tomando as mãos do amigo entre as suas mãos descarnadas e brancas, exclamando:
- Públio, fala-te o coração de uma velha amiga, com as verdades serenas e tristes da morte... Acreditas piamente nas minhas dolorosas revelações?...
O senador fez um esforço para enxugar as lágrimas que lhe caiam copiosamente dos olhos, e, movimentando o máximo de energias, replicou firmemente:
- Sim, acredito.
- E que faremos agora... para reparar nossas faltas... ante o coração generoso e justo de tua mulher?...
Ele deixou transparecer um clarão de ternura nos olhos, e, passando as mãos inquietas pela fronte, como se houvera encontrado solução quase feliz, dirigiu-se à doente, com uma irradiação de alegria e de tranquilidade no semblante, dizendo confortado:
- Sabeis da grande festa do Estado, que se realizará de hoje a poucos dias, na qual os senadores, com mais de vinte anos de serviço ao Império, serão coroados de mirto e rosas, como os triunfadores? 
- Sim - respondeu a matrona -, tanto que já pedi a meus filhos que...não obstante a minha morte próxima... te acompanhem nessa justa alegria... porque serás um dos agraciados pelas nossas autoridades supremas...
- Ó, minha grande amiga, ninguém pode esperar vossa morte, mesmo porque, não poderemos prescindir da preciosa contribuição da vossa vida; mas, já que cuidamos de reparar o meu erro grave no passado doloroso, esperarei mais uma semana para levar ao espírito de Lívia a expressão do meu reconhecimento, da minha gratidão e do meu profundo amor. Irei a essa festa, a realizar-se sob os auspícios de Sêneca, que tudo tem feito por dissimular a penosa impressão causada pela conduta cruel do Imperador, seu antigo discípulo. Depois de receber a coroa da suprema vitória de minha vida pública, trarei todas as condecorações aos pés de Lívia, como preito justo à sua angustiada existência de penosos sacrifícios domésticos... Ajoelhar-me-ei ante a sua figura santificada e, retirando da fronte a auréola do Império, deporei as flores simbólicas a seus pés, que beijarei humildemente com o meu arrependimento e as minhas lágrimas, traduzindo-lhe gratidão e amor infindos!...
- Generosa ideia, meu filho - exclamou a enferma, sensibilizada -, e peço-te que a executes... no momento oportuno. E, no instante... em que testemunhares a Lívia o teu amor supremo... dize-lhe que me perdoe... porque eu chorarei de alegria... vendo ambos felizes... lá das sombras tranquilas do meu sepulcro.
Ambos choravam, comovidos, silenciosamente.
Em dado instante, a velha doente apertou as mãos do amigo, como a dizer-lhe um supremo adeus. Calpúrnia fixou nele os grandes olhos claros - a desprenderem irradiações misteriosas, e, com lágrimas de emoção inexprimível, exclamou comovidamente: 
- Públio... peço... não te esqueças... do prometido... Ajoelha-te aos pés de Lívia... como aos de uma deusa... de renúncia e de bondade... Não te importe... a minha partida deste mundo... Vai à festa do Senado...reparemos... nossa falta grave... e agora, meu amigo... um último pedido...
Vela por meus filhos... como se fossem teus... Ensina-lhes ainda a honradez... a fortaleza... a sinceridade e o bem... Um dia... todos nos... nos reuniremos... na eternidade...
Públio Lentulus apertou-lhe as mãos, sensibilizado, ajeitando-lhe, nas sedosas almofadas, a cabeça encanecida, enquanto lágrimas de comoção lhe embargavam a voz.
Havia muito que a enferma era atacada, subitamente, de periódicas e prolongadas dispneias.
O senador abriu as portas do largo aposento aonde Lívia acorreu, pressurosa, como enfermeira de todos os instantes, enquanto Flávia e algumas servas acudiam com unguentos e outras panaceias da medicina do tempo.
Calpúrnia, porém, parecia atacada pelas últimas aflições que a levariam ao túmulo. Por vinte e quatro horas consecutivas, o peito arfou sibilante, como se a caixa torácica estivesse prestes a rebentar sob o impulso de uma força indomável e misteriosa.
Ao fim de um dia e uma noite de azáfama e angústias, a doente parecia haver experimentado ligeira melhora. A respiração fazia-se menos penosa e os olhos revelavam grande serenidade, embora todo o corpo estivesse salteado de manchas azuladas e violáceas, prenunciando a morte. Apenas a afonia continuava, mas, em dado instante, fez um gesto com a mão, chamando Lívia à cabeceira com a terna familiaridade dos antigos tempos. A esposa do senador atendeu ao apelo silencioso, ajoelhando-se, com os olhos cheios de lágrimas e compreendendo, pela intuição espiritual, que era chegado o instante doloroso da despedida. Via se que Calpúrnia desejava falar, inutilmente. Foi então que cingiu Lívia, amorosamente, contra o peito, osculando-lhe os cabelos e a fronte num esforço supremo e, colando os lábios ao seu ouvido, balbuciou com infinita ternura: - "Lívia, perdoa-me!" Somente a interpelada escutara o brando cicio da agonizante. Foram essas as derradeiras palavras de Calpúrnia. Dir-se-ia que sua alma valorosa necessitava, tão somente, daquele último apelo para conseguir desvencilhar-se da Terra, elevando-se ao Paraíso.
Abraçada à incansável amiga, a agonizante depôs novamente a cabeça nas almofadas, para sempre. Suor abundante transbordava de todo o seu corpo, que se aquietou de leve para a suprema rigidez cadavérica e, dai a minutos, seus olhos se fecharam, como se se preparassem para um grande sono. A respiração foi-se extinguindo brandamente, enquanto uma lágrima pesada e branca lhe rolava nas faces enrugadas, como um raio divino da luz que lhe clarificava a noite do túmulo.
As portas do palácio abriram-se, então, para os tributos afetuosos da sociedade romana. As exéquias da valorosa matrona compareceu o que a cidade possuía de mais nobre e mais fino, em sua aristocracia espiritual, dado o elevado conceito em que eram tidas as peregrinas virtudes da morta.
Terminadas as cerimônias da incineração e guardadas as cinzas ilustres da nobre patrícia nas sombras do jazigo familiar, Flávia Lentúlia assumiu a direção da casa, enquanto seus pais voltavam à residência do Aventino, para o necessário descanso.
Faltavam somente quatro dias para a realização das grandes festas, em que mais de uma centena de senadores receberia a auréola do supremo triunfo na vida pública. Públio Lentulus, que seria dos homenageados na festa memorável, não obstante o luto da família, aguardava o grande momento, com ansiedade. É que, recebida a expressão suprema da vitória de um homem de Estado, levá-la-ia aos pés da esposa, como símbolo perene do seu afeto e do seu reconhecimento da vida inteira. No seu íntimo, arquitetava a maneira mais doce de se dirigir novamente à companheira, no timbre caricioso e suave que a sua voz havia perdido há vinte e cinco anos, e, verificando a continuidade do seu amor, cada vez mais profundo, pela esposa, esperava ansiosamente o instante da sua reintegração na felicidade doméstica.
De noite, naquelas horas longas que se passavam, enquanto o velho coração se preparava para as bênçãos da ventura conjugal, em breves dias, ia ele até às proximidades dos apartamentos da esposa, situados bem distantes do seus, naqueles prolongados anos de amarguras infindas.
Na antevéspera das grandes festividades a que nos referimos, seriam vinte e três horas, quando a sua figura se postara em frente aos aposentos da companheira, antegozando o ditoso momento da penitência, que significava para ele uma alegria suprema.
Enquanto o pensamento se afundava nos abismos do passado longínquo, sua atenção espiritual foi repentinamente despertada pela melodia suave de uma voz de mulher, que cantava baixinho no silêncio da noite. O senador aproximou-se, vagarosamente, da porta, colando o ouvido à escuta... Sim! Lívia cantava em voz apagada e mansa, qual cotovia abandonada, fazendo soar levemente as cordas harmoniosas de uma lira de suas lembranças mais queridas. Públio chorava comovido, ouvindo-lhe as notas argentinas que se abafavam no ambiente restrito do quarto, como se Lívia estivesse cantando para si própria, adormentando o coração humilde e desprezado, para encher de consolo as horas tristes e desertas da noite. Era a mesma composição das musas do esposo, que lhe escapava dos lábios naquele instante em que a voz tinha tonalidades estranhas e maravilhosas, de indefinível melancolia, como se todo o seu canto fosse o lamento doloroso de rouxinol apunhalado:

Alma gêmea da minh'alma,
Flor de luz da minha vida,
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão!...
Quando eu errava no mundo,
Triste e só, no meu caminho,
Chegaste, devagarinho,
E encheste-me o coração.
Vinhas na bênção dos deuses,
Na divina claridade,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor!...
És meu tesouro infinito,
Juro-te eterna aliança,
Porque sou tua esperança,
Como és todo o meu amor!
Alma gêmea da minh'alma,
Se eu te perder, algum dia,
Serei a escura agonia
Da saudade nos seus véus...
Se um dia me abandonares,
Luz terna dos meus amores,
Hei-de esperar-te, entre as flores
Da claridade dos céus...
Daí a minutos, a voz harmoniosa calava, como se fora obrigada a um divino estacato. O senador retirou-se, então, com os olhos marejados de lágrimas, refletindo consigo mesmo: - "Sim, Lívia, de hoje a dois dias hei de provar-te que foste sempre a luz da minha vida inteira... Beijarei teus pés com a minha humildade agradecida e saberei entornar no teu coração o perfume do meu arrependimento..."
Penetrando no aposento de Lívia, vamos encontrá-la genuflexa, depois de haver deposto, sobre um móvel predileto, a lira das suas recordações. Ajoelha-se, como sempre, diante da cruz de Simeão que, nesse dia, mostrava a seus olhos espirituais uma claridade mais intensa.
No curso de suas preces, ouviu a palavra do amigo invisível, cuja tonalidade profunda parecia gravar-se, para sempre, no imo da sua consciência: "Filha - exclamava a voz amiga, do plano espiritual -, regozija-te no Senhor, porque são chegadas as vésperas da tua ventura eterna e imorredoura! Eleva o pensamento humilde a Jesus, porque não está longe o instante ditoso da tua gloriosa entrada no seu Reino!..."
Lívia deixou transparecer no olhar uma atitude de alegria e surpresa, mas, cheia de confiança e fé na providência divina, guardou, nos refolhos mais íntimos do coração, o conforto daquelas palavras sacrossantas. 

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