quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Nos derradeiros minutos de Pompeia .FIM

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel




Em radiosa manhã do ano de 79, toda a Pompeia despertou em rumores festivos.

A cidade havia recebido a visita de um ilustre questor do Império e, naquele dia, todas as ruas se movimentavam em alacridade barulhenta, aguardando-se, para breves horas, as festas deslumbrantes do anfiteatro, com que a administração desejava celebrar o evento, em meio da alegria geral.

Para o velho senador Públio Lentulus, o acontecimento se revestia de importância especial, porquanto o distinto hóspede de Pompeia lhe trazia significativa mensagem, bem como honrosas deferências de Tito Flavius Vespasiano, então imperador, na sucessão de seu pai.

Ainda mais.

No séquito do questor ilustre vinha, igualmente, Plínio Severus, em plenitude de maturidade, totalmente regenerado e julgando-se agora redimido no conceito da esposa e daquele que seu coração considerava como pai.

Nesse dia, enquanto Ana comandava, verbalmente, as atividades domésticas nos preparativos da recepção, mobilizando escravos e servos numerosos, Públio e filha se abraçavam comovidos, em face da surpresa que o destino lhes reservara, embora tardiamente. Avisados por mensageiros da caravana de patrícios ilustres, davam larga às emoções mais gratas do espírito, na doce perspectiva de acolherem o filho pródigo, tantos anos distante de seus braços amigos.

Antes do meio-dia, um deslumbramento de viaturas, de cavalos ajaezados e de joias faiscantes sobre vestiduras reluzentes se deparava às portas da vila plácida e graciosa, provocando a admiração e o interesse curioso das vizinhanças. E, em seguida, foi um turbilhão de abraços, carinhos, palavras confortadoras e generosas.

Quase todos os patrícios, em excursão pela Campânia, conheciam o senador e sua família, representando esse acontecimento um suave encontro de corações.

Públio Lentulus abraçou Plínio, demoradamente, como se fizesse a um filho bem-amado, que voltasse de longe e cuja ausência houvera sido excessivamente prolongada. Experimentava no íntimo impulsos de extravasão de afeto, que o seu coração dominou, para não provocar a admiração injustificada dos circunstantes.

- Meu pai, meu pai! - disse o filho de FIamínio em tom discreto e quase imperceptível aos seus ouvidos, quando lhe beijava a fronte encanecida - já me perdoastes?

Ó filho, como tardaste tanto?!... Quero-te como sempre e que o céu te abençoe!... - respondeu o velho cego, emocionado.

Daí a instante, após o doce encontro de Plínio e sua mulher, exclamou o questor em meio do silêncio geral:

- Senador, honro-me em trazer-vos preciosa lembrança de César, acompanhada de uma mensagem de reconhecimento da alta administração política do Império, um dos mais fortes e mais justos motivos de minha permanência em Pompeia, e incumbo o nosso amigo Plínio Severus de vos entregar, neste momento, estas relíquias que representam uma das mais significativas homenagens do Império ao esforço de um dos seus mais dedicados servidores!...

Públio Lentulus sentia bem a suprema emoção daquela hora.

A homenagem do imperador, a carinhosa presença dos amigos, a volta do genro aos seus braços paternos, representavam para o seu coração uma alegria entontecedora.

Seus olhos, entretanto, nada podiam ver. Do seio da sua noite, ouvia aqueles apelos generosos, como um desterrado da luz, de quem se exumassem as recordações mais queridas e mais doces.

- Amigos - disse, enxugando uma lágrima furtiva nos olhos apagados -, tudo isso é para mim a maior recompensa de uma vida inteira.

Nosso imperador é um espírito excessivamente generoso, porque a verdade é que nada fiz para merecer o reconhecimento da pátria.

Minh'alma, todavia, exulta convosco, meus patrícios, porque a nossa reunião nesta casa é símbolo de união e trabalho, nos elevados encargos do Império!...

Nesse instante, contudo, alguém lhe tomava as mãos encarquilhadas, levando-as aos lábios úmidos, deixando, porém, nas pequeninas conchas das rugas, duas lágrimas ardentes.

Plínio Severus, num gesto espontâneo, ajoelhara-se e, osculando-lhe as mãos, dava expansão ao seu afeto e reconhecimento, ao mesmo tempo que lhe fazia entrega da mensagem imperial que o velho senador não mais podia ler.

Públio Lentulus chorava, sem poder pronunciar uma única palavra, tal a emoção que lhe oprimia o íntimo, enquanto os circunstantes lhe acompanhavam as atitudes com os olhos rociados de pranto.

Nesse ínterim, o filho de Flamínio não mais se conteve e, consagrando a sua regeneração espiritual, exclamava enternecido:

- Meu querido pai, não choreis, se aqui nos achamos todos para compartilhar vossa alegria! Diante de todos os nossos amigos romanos, com a homenagem do Império, eu vos entrego o meu coração regenerado para sempre!... Se estais agora cego, meu pai, não o estais pelo espírito que sempre procurou dissipar as sombras e remover tropeços do nosso caminho!... Continuareis guiando os meus, ou, melhor, os nossos passos, com as vossas antigas tradições de sinceridade e de esforço, na retidão do proceder!... Voltareis comigo para Roma e, junto de vosso filho reabilitado, organizareis novamente o palácio do Aventino... Serei, então, para todo o sempre, uma sentinela do vosso espírito, para vos amar e proteger!... Tomarei minha esposa a meu inteiro cuidado e, dia a dia, tecerei para nós três uma auréola de venturas novas e indefiníveis, com os milagres da minha afeição imorredoura! Em nossa casa do Aventino florescerá uma alegria nova, porque hei-de prover todas as vossas horas com o amor grande e santo de quem, conhecendo todas as duras experiências da vida, sabe agora valorizar seus próprios tesouros!...

O velho senador, alquebrado pelos anos e pelos mais rudes sofrimentos, conservava-se de pé, acariciando os cabelos do genro, igualmente prateados pelos invernos da vida, enquanto pesadas lágrimas rompiam a muralha da sua noite para enternecer o coração de todos, numa angustiosa e indefinível emotividade. Flávia Lentúlia chorava, igualmente, dominada por íntimas sensações de felicidade, ao cabo de tão longas e desalentadas esperanças!... Alguns amigos desejavam quebrar a solenidade dolorosa daquele quadro imprevisto, mas o próprio questor, que chefiava a caravana de patrícios ilustres, se ocultara num recanto, sensibilizado até às lágrimas.

Públio Lentulus, contudo, compreendendo que somente ele próprio poderia modificar as disposições daquela paisagem sentimental, reagiu às emoções, exclamando:

- Levanta-te, meu filho!... Nada fiz para me agradeceres de joelhos...

Porque me falas deste modo?... Voltaremos para Roma, sim, em breves dias, pois todos os teus desejos são os nossos... regressaremos à nossa casa do Aventino, onde, juntos, viveremos para relembrar o pretérito e venerar a memória dos nossos antepassados!

E, depois de uma pausa, continuou, em exclamações quase otimistas:

- Meus amigos, sinto-me comovido e grato pela gentileza e afeto de todos vós! Mas, que é isso? Todos silenciosos? Lembrai-vos de que não vos vejo senão através das palavras. E a festa de hoje?...

As exclamações do senador quebraram o silêncio geral, voltando-se aos intensos ruídos de minutos antes. A torrente das palestras casava-se ao tinir das taças de vinho, em seus pesados estilos da época.

Enquanto as visitas se reuniam no triclínio espaçoso para libações ligeiras, Plínio Severus e a esposa trocavam confidências ternas, ora sobre os projetos em perspectiva para os anos que ainda lhes restavam no mundo, ora quanto às recordações dos dias lentos e amargurados do passado distante.

Insistentes chamados, porém, requeriam a presença do questor e comitiva, no local dos festejos.

O circo fora preparado a rigor e não se perdera nenhuma oportunidade para a realização das menores minudências próprias das grandes festividades romanas.

E ao mesmo tempo que todos se despediam do senador e de sua filha, num deslumbramento de felicidade mundana, Plínio Severus dirigia-se a Públio nestes termos, depois de abraçar ternamente a companheira:

- Meu pai, levado pelas circunstâncias, sou compelido a acompanhar o questor nas festividades populares, mas estarei de regresso em breves horas, para ficar convosco um mês, de modo a tratarmos do nosso regresso a Roma.

- Muito bem, meu filho - respondia o velho senador, sumamente confortado -, acompanha os nossos amigos e representa-me junto das autoridades. Dize a todos da minha emoção e do meu agradecimento sincero.

A sós novamente, o senador sentiu que aquelas comoções cariciosas e alegres eram, talvez, as últimas da sua vida. No velho peito, o coração batia-lhe descompassado, como se pesada nuvem de pensamentos tristes o envolvesse. Sim, a volta de Plínio aos seus braços paternos era a alegria suprema da sua velhice desalentada. Sabia, agora, que a filha poderia contar com o esposo, nas estradas do seu tormentoso destino, e que a ele, Públio, somente competia aguardar a morte, resignado. Ponderando as palavras afetuosas do filho de FIamínio e os seus apelos ao passado remoto, Públio Lentulus considerou, intimamente, que era muito tarde para regressar ao Aventino e que a volta a Roma apenas devia significar, para o seu espírito precito, o símbolo da sepultura.

Em pleno espetáculo, Plínio Severus, já no outono da vida, arquitetava os planos de futuro. Procuraria resgatar todas as faltas antigas, perante os seus parentes afetuosos e queridos; assumiria a direção de todos os negócios do velho pai pelo coração, aliviando-o de todas as angustiosas preocupações da vida material.

De vez em quando, os aplausos da multidão lhe interrompiam os devaneios. A maioria da população de Pompeia ali estava em plena festa, ovacionando os triunfadores. Gente de toda a redondeza e muito particularmente de Herculanum, acorrera pressurosa ao divertimento predileto daquelas épocas recuadas. De permeio com os atletas e gladiadores, estavam os músicos, os cantores e os dançarinos.

Tudo era um farfalhar de sedas, um delicioso chocalhar de alegrias ruidosas, ao som de flautas e alaúdes.

Em dado instante, porém, a atenção geral foi solicitada por um fato estranho e incompreensível. Do cimo do Vesúvio elevava-se grossa pirâmide de fumo, sem que ninguém atinasse com a causa do fenômeno insólito.

Continuavam os jogos animadamente, mas agora, no seio da coluna fumarenta que se elevava em caprichosos rolos para o alto, surgiam impressionantes labaredas...

Plínio Severus, como todos os presentes, se surpreendia com o fenômeno estranho e inexplicável.

Em minutos breves, no entanto, estabeleciam-se no anfiteatro a confusão e o terror.

Em meio da perturbação geral e imprevista, o filho de Flamínio ainda teve tempo de se aproximar do questor, então rodeado dos seus familiares que residiam na cidade, o qual lhe falou com otimismo, embora não conseguisse dissimular de todo as Íntimas inquietações:

- Meu amigo, tenhamos calma! Pelas barbas de Júpiter!... Então, por onde andarão a nossa coragem e a nossa fibra?

Mas, em breves instantes a terra lhes tremia sob os pés, em vibrações desconhecidas e sinistras. Algumas colunas tombavam ao solo, pesadamente, enquanto numerosas estátuas rolavam dos nichos improvisados, recamados de ouro e pedrarias.

Abraçando-se, então, à filha e cercado de numerosas senhoras, o questor disse altamente preocupado:

- Plínio, demandemos as galeras, sem demora!...

Mas, o oficial romano não mais ouviu os apelos. Ansiosamente, atirou-se à faina de romper a multidão, que desejava retirar-se em massa do circo, motivando o esmagamento de crianças e pessoas mais idosas.

Ao cabo de sobre-humano esforço, conseguiu alcançar a rua, mas todos os lugares estavam tomados por gente que saía de casa, desarvorada, aos gritos de "Fogo, Fogo!... O Vesúvio..."

Plínio verificou que todas as vias públicas estavam repletas de gente desesperada, de viaturas e de animais espavoridos.

Com enorme dificuldade, vencia todos os obstáculos, mas o Vesúvio lançava agora, para o céu, uma fogueira indescritível e imensa, como se a própria Terra houvera incendiado as entranhas mais profundas.

Uma chuva de cinza, a princípio quase imperceptível, começou a cair, enquanto o solo continuava a tremer com ruídos surdos, aterradores.

De instante a instante, ouvia-se o estrondo pavoroso de colunas derribadas ou de edifícios desmoronados pelos abalos sísmicos, ao mesmo tempo que o fumo do vulcão ia eclipsando a confortadora claridade solar.

Mergulhada em penumbra espessa e tomada de terror indizível, Pompeia assistia aos seus últimos instantes, numa aflição desesperada...

Na vila de Lentulus, os escravos perceberam imediatamente o perigo próximo. Nos primeiros momentos, os cavalos relinchavam estranhamente e as aves inquietas fugiam em desespero.

Após a queda das primeiras colunas que sustentavam o edifício, todos os servos do senador abandonaram precipitadamente os postos, desejosos de conservar noutra parte os bens preciosos da vida. Somente Ana ficara junto dos amos, dando-lhes conhecimento dos horrores do ambiente.

Os três, numa justificada inquietude, escutaram o rumor horrível da inolvidável catástrofe do Império. A própria vila estava já meio destruída, penetrando as cinzas pelos desvãos abertos pela queda dos telhados e começando a sua obra de lenta sufocação. Ansiavam todos pelo regresso imediato de Plínio, a fim de resolverem as providências a adotar, mas o velho senador, cujo coração não se iludia nos seus amargurados pressentimentos, exclamou em tom quase resignado:

- Ana, traze a cruz de Simeão e vamos à prece que te foi ensinada pelos discípulos do Messias!... Diz-me o coração que é chegado o fim da nossa romagem pela Terra!

Enquanto a serva buscava apressadamente a relíquia do ancião de Samaria, afrontando o perigo das paredes oscilantes, Públio Lentulus ouvia o surdo rumor da terra dilacerada e os gritos apavorantes e sinistros do povo, misturados ao barulho tremendo do vulcão que, transformado em fornalha imensa e indescritível, enchia toda a cidade de cinzas e lavas ferventes. Lembrou-se, então, o senador, das afirmativas do Cristo nos dias idos da Galileia, quando lhe asseverava que toda a grandeza romana era bem miserável e num minuto breve poderia o Império ser reduzido a um punhado de pó. O coração batia-lhe descompassado naquele minuto extremo, mas a velha serva havia regressado e ajoelhara-se, serena, guardando nas mãos a lembrança de Simeão e de Lívia, orando em voz comovedora e profunda:

"Pai Nosso, que estais no céu... santificado seja o vosso nome...venha a nós o vosso reino... seja feita a vossa vontade... assim na Terra como nos céus..."

Nesse instante, porém, a voz da serva emudeceu subitamente, enquanto seu corpo rolava sob novos escombros, sentindo-se ela amparada, espiritualmente, pelo venerável samaritano que a conduziu, imediatamente, às mais elevadas esferas espirituais, tal a natureza do seu coração iluminado nas dores e testemunhos mais angustiosos do aprendizado terrestre.

- Ana!... Ana!... - exclamavam Públio e Flávia, soluçantes, sentindo ambos pela primeira vez o infortúnio do insulamento supremo, sem uma luz e sem um guia, em pleno desamparo!

Alguém, contudo, rompera todos os destroços e chegava, rápido, até àquela câmara interior, e, abraçando Públio e sua filha gritava em voz opressa: - "Flávia! meu pai! aqui estou..."

Plínio chegava, afinal, para o instante derradeiro. Flávia Lentúlia apertou-o carinhosamente nos braços, enquanto o velho senador semi asfixiado tomava as mãos do filho, abraçando-se os três num amplexo derradeiro.

Flávia e Plínio quiseram falar, mas grossa camada de cinzas penetrava o interior, pelas fendas enormes da vila meio destruída...

Mais um estremeção do solo e as colunas que ainda restavam de pé se abateram sobre os três, roubando-lhes as últimas energias e fazendo-os cair assim, enlaçados para sempre, sob um montão de escombros...

Naquelas sombras espessas, todavia, pairavam criaturas aladas e leves, em atitudes de prece, ou confortando ativamente o coração abatido dos míseros condenados à destruição.

Sobre os três corpos soterrados permanecia a entidade radiosa de Lívia, junto de numerosos companheiros que cooperavam, com devotamento e precisão, nos serviços de desprendimento total dos moribundos.

Pousando as mãos luminosas e puras na fronte abatida do companheiro exausto e agonizante, Lívia elevou os olhos ao firmamento enegrecido e orou com a suavidade da sua fé e dos seus sentimentos diamantinos.

- Jesus, meigo e divino Mestre - esta hora angustiosa é bem um símbolo dos nossos erros e crimes, através de avatares tenebrosos; mas, vós, Senhor, sois toda a esperança, toda a sabedoria e toda a misericórdia!... Abençoai nossos espíritos neste momento ríspido e doloroso!... Suavizai os tormentos da alma gêmea da minha, concedendo-lhe neste instante o alvará da liberdade!... Aliviai, magnânimo Salvador do mundo, todas as suas magoas pungentes, suas desoladoras amarguras!...

Concedei-lhe repouso ao coração angustiado e dolorido, antes do seu novo regresso à trama escura das reencarnações no planeta do exílio e das lágrimas dolorosas... Ele já não é mais, Senhor, o vaidoso déspota de outrora, mas um coração inclinado ao bem e â piedade pregados pela vossa doutrina de amor e redenção; sob o peso das provações amargas e remissoras, seus pendores se espiritualizaram a caminho da vossa Verdade e da vossa Vida!...

E, enquanto Lívia orava, o senador abraçado aos filhos, já cadáveres, desferia o último gemido, com pesada lágrima a lhe cintilar nos olhos mortos...

Numerosas legiões de seres espirituais volitaram por vários dias, nos céus caliginosos e tristes de Pompeia.

Ao cabo de longas perturbações, Públio Lentulus e filhos despertaram, ali mesmo, sobre o túmulo nevoento da cidade morta.

Em vão o senador invocou a presença de Ana ou de algum outro servo, na penosa ilusão da vida material, persistindo em seu organismo psíquico as impressões da cegueira material, que representara o longo suplício dos seus anos derradeiros, na indumenta da carne.

Contudo, após as primeiras lamentações, ouviu uma voz que lhe dizia brandamente:

- Públio, meu amigo, não apeles mais para os recursos do planeta terreno, porque todos os teus poderes terminaram com os teus despojos, na face escura e triste da Terra! Apela para Deus Todo-Poderoso, cuja misericórdia e sabedoria nos são dadas pelo amor do seu Cordeiro, que é Jesus-Cristo!...

Públio Lentulus não chegou a lobrigar o interlocutor, mas identificou a voz de Flamínio Severus, desabafando, então, numa torrente de preces e de lágrimas fervorosas.

Embora as dedicações constantes de Lívia, havia já alguns dias que seu espírito se encontrava presa de pesadelos angustiosos, nos primeiros instantes da vida do Além, assistido, porém, continuamente por Flamínio e outros companheiros abnegados, que o aguardavam no plano espiritual.

Contudo, depois daquelas súplicas sinceras que lhe fluíam do mais recôndito do coração, sentiu que seu mundo interior se desanuviara...

Junto dos filhos queridos, recobrou a visão e reconheceu os entes amados, com lágrimas de amor e reconhecimento, nos pórticos do além túmulo.

Ali se conservavam numerosas personagens desta história, como Flamínio, Calpúrnia, Agripa, Pompílio Crasso, Emiliano Lucius e muitos outros; mas, em vão, os olhos angustiosos do ex-senador procuravam alguém na assembleia afetuosa e amiga.

Depois de todas as expansões de carinho e alegria dirigiu-se-lhe Flamínio, intencionalmente.

- Estranhas a ausência de Lívia - dizia ele com o seu olhar complacente e generoso -, mas não poderás vê-la, enquanto não conseguires despir, pela prece e pelos bons desejos, todas as impressões penosas e nocivas da Terra. Ela se tem conservado junto ao teu coração, em rogativas sinceras e fervorosas pelo teu reerguimento, mas o nosso grupo ainda é de espíritos muito apegados ao orbe, e esperávamos o regresso dos seus últimos componentes, ainda na Terra, para podermos, em conjunto, estabelecer novo roteiro às reencarnações vindouras.. Séculos de trabalho e de dor nos esperam na senda da redenção e do aperfeiçoamento, mas precisamos, antes de tudo, buscar a fortaleza precisa em Jesus, fonte de todo o amor e de toda a fé, para as elevadas realizações do nosso pensamento!..

Públio Lentulus chorava, tocado por emoções estranhas e indefiníveis.

- Meu amigo - continuou Flamínio, amoroso -, pede a Jesus, por todos nós, a misericórdia dessa claridade de um novo dia!...

Públio, então, ajoelhou-se e, banhado em lágrimas, concentrou o coração em Jesus numa rogativa ardente e silenciosa... Ali, na soledade da sua alma intrépida e sincera, apresentava ao Cordeiro de Deus o seu arrependimento, suas esperanças para o porvir, suas promessas de fé e de trabalho para os séculos porvindouros!...

Todos os presentes lhe acompanharam a oração, tomados de pranto e mergulhados em vibrações de consolação inefável.

Viram, então, rasgar-se um caminho luminoso e florido nos céus escuros e tristes da Campânia, e, por ele, como se descessem dos jardins fulgurantes do Paraíso, surgiram Lívia e Ana abraçadas, como se ainda ali enviasse Jesus um ensinamento simbólico àquelas almas prisioneiras da Terra, de modo a lhes revelar que, em qualquer posição, pode a alma encarnada buscar o seu reino de luz e de paz, de vida e de amor, tanto na túnica humilde do escravo, como na pomposa indumentária dos senhores.

O velho patrício contemplou a figura radiosa da companheira e, extasiado, fechou os olhos banhados no pranto da compunção e do arrependimento; mas, em breve, dois lábios de névoa pousavam-lhe na fronte, qual o leve roçar de um lírio divino. E, enquanto seu coração maravilhado se lavava nas lágrimas da alegria e do reconhecimento a Jesus, toda a caravana, ao impulso poderoso das preces fervorosas daquelas duas almas redimidas, elevava-se a esferas mais altas, para repouso e aprendizado, antes de novas etapas de regeneração e trabalhos purificadores, a lembrar um grupo maravilhoso de luminosas falenas do Infinito!...

FIM

Se lhe agradou a leitura deste livro, deverá conhecer a reencarnação de Publius, em "50 Anos Depois", outro romance do mesmo Autor.

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