sábado, 8 de outubro de 2016

Na Galileia - Primeira Parte IV

No dia imediato a esses acontecimentos, às primeiras horas da manhã, Públio Lentulus foi procurado, na intimidade do seu gabinete particular, por Fúlvia, que se lhe dirigiu, criminosamente, nestes termos:

- Senador, o ascendente de nossas ligações familiares obriga-me a procurar-vos para tratar de um assunto desagradável e doloroso, mas, nas minhas experiências de mulher, cumpre-me aconselhá-lo a resguardar sua esposa da insídia dos próprios amigos, pois que, ainda ontem, tive oportunidade de surpreendê-la em íntimo colóquio com o governador...

O interpelado estranhou aquela atitude insólita, grosseira, contrária a todos os seus métodos de homem de bem.

Repeliu dignamente a investida, encarecendo a nobreza moral de sua esposa, passando Fúlvia a relatar-lhe, com os mais exaltados floreios de sua imaginação doentia, a cena da véspera, nas suas mínimas minudências. 

O senador ficou pensativo, mas sentiu-se com a precisa coragem moral para repelir a insinuação caluniosa.

- Pois bem - disse ela, terminando a denúncia -, muito longe levais a vossa confiança e boa fé. Um homem nunca perde por ouvir os conselhos da experiência feminina. A prova de que Lívia caminha na estrada larga da prevaricação tê-la-eis muito breve, porquanto ela há-de preferir a partida imediata para Nazaré, onde o governador buscará encontrá-la.

E, dizendo-o, retirou-se apressadamente, deixando o senador algo desalentado e compungido, pensando nos corações mesquinhos que o rodeavam, porque, no tribunal da consciência, não se sentia disposto a aceitar ideia que viesse conspurcar a valorosa nobreza de sua mulher.

Imenso véu de sombras cobriu-lhe o espírito sensível e afetuoso.

Sentiu que, em Jerusalém, conspiravam contra ele todas as forças tenebrosas do seu destino, experimentando vasto deserto no coração.

Ali, não encontraria a palavra prudente e generosa de um amigo como Flamínio, com quem pudesse desabafar as suas profundas mágoas.

Absorto nessas meditações angustiosas, não viu que as pétalas das horas rodopiavam incessantes, nos torvelinhos do tempo. Só muito depois percebeu o vozerio de um dos serviçais de confiança, vindo a saber que Sulpício Tarquinius lhe solicitava o obséquio de uma entrevista particular, pedido a que atendeu com o máximo de atenção.

Admitido ao interior do gabinete, o lictor referiu-se, sem preâmbulos, aos fins da visita, explicando com desembaraço:

- Senador, honrado com a vossa confiança no caso de vossa transferência para uma estação de repouso, venho sugerir-vos o arrendamento de rica propriedade pertencente a um nosso compatrício, nos arredores de Cafarnaum, encantadora cidade da Galileia, situada no caminho de Damasco. É verdade que já escolhestes Nazaré, mas, ao longo da planície de Esdrelon, as casas confortáveis são muito raras, acrescendo que seríeis obrigado a enormes dispêndios em serviços de remodelação e benfeitorias. Em Cafarnaum, porém, o caso é diferente. Tenho ali um amigo, Caio Gratus, decidido a arrendar por tempo ir determinado a sua esplêndida vila, que é uma herdade provida de todo o conforto, com pomares preciosos, num ambiente de absoluto sossego.

O senador ouvia o preposto de Pilatos como se o espírito lhe pairasse noutra parte; mas, como se tivesse a atenção subitamente despertada, exclamou, na atitude de quem argumenta consigo mesmo:

- De Jerusalém a Nazaré, temos setenta milhas... Onde fica

Cafarnaum?...

- Muito distante de Nazaré - obtemperou o lictor, com segunda intenção.

- Está bem, Sulpício - respondeu Públio, com ares de quem tomou uma resolução íntima -, estou muito agradecido pela tua gentileza, que não esquecerei de recompensar em tempo oportuno. Aceito a tua sugestão que reputo sensata, mesmo porque, de fato, não me pode interessar a aquisição definitiva de qualquer imóvel na Galileia, atenta a necessidade de regressar a Roma, dentro em breve. Ficas autorizado a concluir o negócio, porquanto me louvo nas tuas informações, descansando, confiadamente, no teu conhecimento do assunto.

Secreta satisfação transpareceu nos olhos de Sulpício, que se despediu com fingido reconhecimento.

Públio Lentulus descansou novamente os cotovelos na mesa de trabalho, submerso em profundas cismas.

Aquela sugestão de Sulpício chegava no instante psicológico de suas angustiosas cogitações, porque, em face dessa nova providência, conseguiria instalar a família longe de qualquer influência da casa do procurador da Judeia, salvando, assim, a sua reputação dos salpicos ignominiosos da maledicência.

A denúncia de Fúlvia, todavia, desdobrava sucessivas preocupações no seu íntimo. Fosse pelo inopinado da calúnia, ou pelo espírito de perversidade com que a mesma fora urdida, seu pensamento mergulhou em ansiosas expectativas.

À noite daquele mesmo dia, após o jantar, vamos encontrá-lo a sós com Lívia, no terraço da residência do pretor, que, por sua vez, se ausentara de casa por algumas horas, em companhia dos seus familiares, para atender a imperativos de certas pragmáticas.

Notando-lhe no rosto os sinais evidentes de profunda contrariedade, rompeu a esposa com a encantadora intimidade do seu coração feminino:

- Querido, pesa-me ver-te assim, dobrado ao jugo de tamanhos desgostos, quando esta longa viagem deveria restituir-nos a tranquilidade necessária ao desenvolvimento dos teus encargos... Ouso pedir que apresses a nossa mudança de Jerusalém para um ambiente mais calmo, onde nos sintamos mais a sós, fora deste círculo de criaturas cujos hábitos não são os nossos, e cujos sentimentos desconhecemos. Quando partiremos para Nazaré?...

- Para Nazaré? - repetiu o senador, com voz irritada e sombria, como se o tocasse o espírito venenoso do ciúme, lembrando, involuntariamente, as acusações infundadas de Fúlvia.

- Sim - prosseguiu Lívia, súplice e carinhosa -, pois não foram essas as providências ontem aventadas?

- É verdade, querida! - exclamou Públio, já pesaroso, voltando a si dos maus pensamentos que havia abrigado por um instante - mas resolvi depois instalarmo-nos em Cafarnaum, contrariando as últimas decisões... 

E tomando a mão da companheira, como se buscasse um bálsamo para a alma ferida, sussurrou-lhe de manso:

- Lívia, és tudo que me resta neste mundo!... Nossos filhos são flores da tua alma, que os deuses nos deram para minha alegria!... Perdoa-me, querida... Há quanto tempo tenho vivido absorto e taciturno, esquecendo o teu coração sensível e carinhoso! Parece-me estar despertando agora de um sono muito doloroso e muito profundo, mas despertando com a alma receosa e oprimida. Andam-me, no íntimo, amargurados vaticínios... Temo perder-te, quando quisera encerrar-te no peito, guardando-te no coração eternamente... Perdoa-me...

Enquanto ela o contemplava, surpresa, seus lábios sequiosos lhe cobriam as mãos de beijos ardentes. E não foram apenas os ósculos afetuosos que brotaram nesse transbordamento de carinhos. Uma lágrima lhe gotejou dos olhos cansados, misturando-se às flores da sua afeição.

- Que é isso, Públio? Choras? - exclamou Lívia, enternecida e angustiada.

- Sim! Sinto os gênios do mal cercando-me o coração e a mente. Meu íntimo está povoado de visões sombrias, prenunciando o fim da nossa felicidade; mas eu sou um homem e sou forte... Querida, não me negues a tua mão para atravessarmos juntos o caminho da vida, porque, contigo, vencerei o próprio impossível!...

Ela estremeceu em face dessas observações, que lhe não eram familiares.

Num relance, retrocedeu à noite anterior, considerando o atrevimento do governador, que dignamente repelira, experimentando, ao lado da aflição pelo companheiro, soberana tranquilidade de consciência e, tomando ligeiramente as mãos do esposo, levou-o a um canto do terraço, onde se postou à frente de uma harpa harmoniosa e antiga, cantando baixinho, como se a sua voz, naquela noite, fosse o gorjeio de uma cotovia apunhalada:

"Alma gêmea da minh'alma,

Flor de luz da minha vida,

Sublime estrela caída

Das belezas da amplidão!...

Quando eu errava no mundo

Triste e só, no meu caminho,

Chegaste, devagarinho,

E encheste-me o coração.

Vinhas na bênção dos deuses,

Na divina claridade,

Tecer-me a felicidade,

Em sorrisos de esplendor!...

És meu tesouro infinito,

Juro-te eterna aliança,

Porque eu sou tua esperança,

Como és todo o meu amor!"

Tratava-se de uma composição dele, na mocidade, tão ao gosto da juventude romana, dedicada ela própria, e que o seu talento musical guardava sempre, para circunstâncias especiais do seu sentimento.

Naquele instante, porém, sua voz tinha tonalidades diferentes, como se houvera encerrado na garganta uma toutinegra divina, exilada dos prados brilhantes do Paraíso.

Na última nota, tocada de tristeza e angústia indefiníveis, Públio tomou-a brandamente de encontro ao peito, forte e resoluto, como se quisesse reter para sempre, no coração, a sua joia de inimaginável pureza.

Agora, era Lívia a chorar copiosamente nos braços do companheiro, e este a beijá-la nos transportes de sua alma leal e, por vezes, impulsiva.

Depois daquele arroubo emotivo, Públio sentiu-se desanuviado e satisfeito. 

- Porque não regressarmos a Roma quanto antes? - perguntou Lívia, como se o seu espírito estivesse clarificado por luzes proféticas, com relação aos dias futuros. - Junto dos filhinhos retomaríamos nossas obrigações habituais, cientes de que a luta e o sofrimento estão em todos os lugares e de que toda alegria significa, neste mundo, uma bênção dos deuses!..

O senador ponderou a proposta da companheira, estabelecendo a análise de toda a situação no seu íntimo, obtemperando, por fim:

- Tua observação é justa e providencial, minha querida, mas, que diriam os nossos amigos quando soubessem que, depois de tantos sacrifícios com a viagem, havíamos resolvido a permanência de apenas uma semana em região tão distante? E a nossa doentinha? Seu organismo não tem reagido de modo eficaz, em contato com o novo clima?

Estejamos confiantes e tranquilos. Apressarei a partida para Cafarnaum e,em breves dias, estaremos em novo ambiente, segundo os nossos desejos.

Assim aconteceu, efetivamente.

Reagindo às vibrações perniciosas do meio, Públio Lentulus providenciou a solução de todos os problemas atinentes à mudança, fazendo ouvidos moucos às indiretas de Fúlvia, enquanto Lívia, escudando-se na superioridade de sua alma, buscava insular-se dentro do pequeno mundo de amor dos dois filhinhos, fugindo à presença do governador, que não desistira dos seus assédios, e junto de quem a figura nobre de Cláudia sabia despertar em todos a mais sincera simpatia.

Duas servas foram admitidas ao serviço do casal, na perspectiva de sua transferência para Cafarnaum; não que fossem indispensáveis ao desdobramento das atividades domésticas, em face dos servos numerosos trazidos de Roma; contudo, o senador examinara a utilidade dessa providência, considerando que ele e a família viriam a necessitar de um contato mais direto com os costumes e dialetos do povo, reconhecida a circunstância de que ambas conheciam a Galileia.

Ana e Sêmele, recomendadas por amigos do pretor, foram recebidas ao serviço de Lívia, que as acolheu com bondade e simpatia.

Trinta dias se passaram nos preparativos da projetada viagem.

Sulpício Tarquinius, estimulado pelas vantagens dos próprios interesses materiais, não perdeu ensanchas de captar a plena confiança do senador, organizando a propriedade com minúcias de atenção e gentileza, provocando o contentamento e o elogio de todos.

Nas vésperas da partida, Públio Lentulus compareceu ao gabinete de Pilatos, para o agradecimento das despedidas.

Depois de saudá-lo cordialmente, exclamou o governador, com forçada jovialidade:

- É pena, caro amigo, que as circunstâncias o conduzam para Cafarnaum, quando esperava ter a satisfação de retê-lo nas vizinhanças de nossa casa, em Nazaré.

Mas, enquanto permanecer na Galileia, em vez de minhas habituais visitas a Tiberíades, procurarei o norte para nos avistarmos.

Públio manifestou-lhe sua gratidão e reconhecimento e, quando se preparava para sair, o procurador da Judeia continuou, em tom afetuoso e conselheiral:

- Senador, não só como responsável pela situação dos patrícios na província, como também na qualidade de amigo sincero, não posso deixa lo partir à mercê do acaso, tão somente na companhia de escravos e servos de confiança. Acabo de designar Sulpício, homem que me merece inteira confiança, para dirigir os serviços de segurança que vos são devidos. Além dele, mais um lictor e alguns centuriões partirão para Cafarnaum, onde permanecerão às suas ordens.

Públio agradeceu cortesmente, sentindo-se confortado com o oferecimento, embora a pessoa do governador lhe causasse pouca simpatia íntima.

Afinal, terminados os aprestos de viagem, a compacta caravana se pôs em movimento, atravessando os territórios de Judá e as montanhas verdes da Samaria, em demanda da sua estação de destino.

Alguns dias foram gastos através das estradas que contornam muitas vezes as águas leves e límpidas do Jordão.

Prestes a chegar a Cafarnaum, à distância de meio quilômetro de caminho, entre árvores frondosas, junto ao lago de Genesaré, uma herdade imponente aguardava as nossas personagens para a sua estação de repouso.

Sulpício Tarquinius desvelara-se nas mais íntimas minudências, no que dizia com o bom gosto da época.

A propriedade estava situada em pequena elevação de terreno, rodeada de árvores frutíferas dos climas frios, pois, há dois mil anos, a Galileia, hoje transformada em poeirento deserto, era um paraíso de verdura. Nas suas paisagens maravilhosas, desabrochavam flores de todos os climas. Seu lago imenso, formado pelas águas cristalinas do rio sagrado do Cristianismo, era talvez a mais piscosa bacia em todo o mundo, descansando as suas vagas mansas e preguiçosas ao pé dos arbustos ricos de seiva, cujas raízes se tocavam do perfume agreste dos eloendros e das flores silvestres. Nuvens de aves cariciosas cobriam, em bandos compactos, aquelas águas feitas de um prodigioso azul celeste, hoje encarceradas entre rochedos adustos e ardentes.

Ao norte, as eminências nevosas do Hermon figuravam-se em linhas alegres e brancas, divisando-se ao ocidente as alevantadas planícies da Gaulanítida e da Pereia, envolvidas de sol, formando, juntas, um grande socalco que se alonga de Cesareia de Filipe para o sul. 

Uma vegetação maravilhosa e única, operando a emanação incessante do ar mais puro, temperava o calor da região, onde o lago se localiza, muito abaixo do nível do Mediterrâneo.

Públio e sua mulher sentiram uma onda de vida nova, que seus pulmões aspiravam a longos haustos.

Entretanto, o mesmo não acontecia à pequenina Flávia, cujo estado geral piorava ao extremo, contra todas as previsões.

Agravaram-se as feridas que lhe cobriam o corpo magrinho e a pobre criança não conseguia mais arredar pé do leito, onde se conservava em profunda prostração.

Acentuava-se, desse modo, a angústia paterna que, embalde, recorreu a todos os meios para melhorar as condições da doentinha.

Um mês havia transcorrido em Cafarnaum, onde, mais em contato com os dialetos do povo, já não lhes era desconhecida a fama das obras e das pregações de Jesus.

Vezes inúmeras, pensou Públio em dirigir-se ao taumaturgo, a fim de solicitar a sua intervenção a favor da filhinha, atendendo a um apelo secreto do coração. Reconhecia no íntimo, porém, que semelhante atitude representava humilhação para a sua posição política e social, aos olhos dos plebeus e vassalos do Império, examinando as consequências que poderiam advir de tal procedimento.

Não obstante essas ponderações, permitia que numerosos servos de sua casa assistissem, aos sábados, às pregações do profeta de Nazaré, inclusive Ana, que se tomara de respeitosa veneração por aquele a quem os humildes chamavam Mestre.

Dele teciam os escravos as mais encantadoras histórias, nas quais o senador nada via, além dos arrebatamentos instintivos da alma popular, se bem não deixasse de o surpreender a opinião lisonjeira de um homem como Sulpício. 

Uma tarde, porém, os padecimentos da pequenina haviam atingido o auge. Além das feridas que, de muitos anos, se haviam multiplicado no corpinho gracioso, outras úlceras surgiram nas regiões da epiderme, antes violáceas, transformando-lhe os órgãos delicados numa pústula viva.

Públio e Lívia, intimamente consternados, aguardavam um fim próximo.

Nesse dia, após o jantar muito simples, Sulpício demorou-se até mais tarde, a pretexto de confortar o senador com a sua presença.

É assim que vamos encontrá-los ambos no terraço espaçoso, onde Públio lhe fala nestes termos:

- Meu amigo, que me diz desses rumores aqui propalados acerca do profeta de Nazaré? Habituado a não dar ouvidos à palavra ignorante do povo, gostaria de ouvir novamente as suas impressões sobre esse homem extraordinário.

- Ah! sim - diz Sulpício, como quem se esforça por se lembrar de alguma coisa -, intrigado com aquela cena que há tempos presenciei e que tive ocasião de relatar na residência do governador, tenho procurado seguir as atividades desse homem, na medida das minhas possibilidades de tempo.

Alguns compatrícios nossos o têm na conta de visionário, opinião que compartilho no que se refere às suas prédicas, cheias de parábolas incompreensíveis, mas não no que respeita às suas obras, que nos tocam o coração.

O povo de Cafarnaum anda maravilhado com os seus milagres e posso assegurar-vos que, em torno dele, já se formou uma comunidade de discípulos dedicados, que se dispõem a segui-lo por toda parte.

- Mas, afinal, que ensina ele às multidões? - perguntou Públio, interessado.

- Prega alguns princípios que ferem as nossas mais antigas tradições, como, por exemplo, a doutrina do amor aos próprios inimigos e a fraternidade absoluta entre todos os homens. Exorta os ouvintes a buscarem o reino de Deus e a sua justiça, mas não se trata de Júpiter, o senhor de nossas divindades; ao contrário, fala de um Pai misericordioso e compassivo, que nos segue do Olimpo e para quem estão patentes as nossas ideias mais secretas. De outras vezes, o profeta de Nazaré se expressa acerca desse reino do céu com apólogos interessantes e incompreensíveis, nos quais há reis e príncipes criados pela sua imaginação sonhadora, que nunca poderiam ter existido.

O pior, todavia - rematou Sulpício, emprestando grave entono às palavras -, é que esse homem singular, com esses princípios de um novo reino, avulta na mentalidade popular como um príncipe surgido para reivindicar prerrogativas e direitos dos judeus, dos quais, talvez, queira assumir a direção algum dia...

- Que providência adotam as autoridades da Galileia, no exame dessas ideias revolucionárias? - indagou o senador, com maior interesse 

- Aparecem já os primeiros indícios de reação, por parte dos elementos mais ligados a Ântipas. Há alguns dias, quando passei por Tiberíades, notei que se formavam algumas correntes de opinião, no sentido de levar o assunto à consideração das altas autoridades.

- Bem se vê - exclamou o senador - que se trata de simples homem do povo, a quem o fanatismo dos templos judaicos encheu de pruridos de reivindicações injustificáveis. Suponho que a autoridade administrativa nada tem a recear de semelhante pregador, mestre de uma humildade e fraternidade incompatíveis com as conquistas contemporâneas. Por outro lado, ao ouvir de tua boca a descrição dos seus feitos, sinto que esse homem não pode ser criatura tão vulgar, como vimos supondo.

- Desejaríeis conhecê-lo mais de perto? - perguntou Sulpício,atencioso.

- De modo algum - respondeu Públio, alardeando superioridade. – Tal cometimento de minha parte viria quebrar a compostura dos deveres que me competem como homem de Estado, desmoralizando-se minha autoridade perante o povo. Aliás, considero que os sacerdotes e pregadores da Palestina deveriam fazer estágios de trabalho e de estudo, na sede do governo imperial, a fim de renovar-se esse espírito de profetismo que aqui se observa em toda parte. Em contato com o progresso de Roma, haveriam de reformar suas concepções íntimas acerca da vida, da sociedade, da religião e da política.

Enquanto os dois mantêm essa palestra sobre a personalidade e os ensinos do mestre de Nazaré, penetremos no interior da casa.

No quarto da doentinha, vamos encontrar Lívia e Ana pensando as feridas que cobriam a epiderme da pequenina enferma, agora transformadas em uma só úlcera generalizada.

Ana, coração bondoso e meigo, pouco mais velha que sua senhora, se havia transformado em companheira predileta, no círculo dos seus afazeres domésticos. Naquele deserto de corações, era naquela serva, inteligente e afetuosa, que a alma sensível de Lívia encontrara um oásis para as confidências e lutas de cada dia.

- Ah! senhora - exclamava a serva, com sincero carinho a lhe transparecer dos olhos e dos gestos -, guardo no coração profunda fé nos milagres do Mestre, acreditando mesmo que, se levássemos esta criança para receber a bênção de suas mãos, sarariam as chagas e ela ressurgiria para o seu amor maternal... Quem sabe?

- Infelizmente - respondeu Lívia, com ponderação e tristeza - eu não me atreveria a lembrar essa providência, consciente de que Públio haveria de recusá-la, dada a nossa posição social; mas, francamente, desejaria ver esse homem caridoso e extraordinário de que sempre me falas.

- Ainda no último sábado, senhora - respondeu a serva, animada pelas palavras de simpatia que acabava de ouvir -, o profeta de Nazaré recebeu nos braços numerosas crianças.

Ao sair da barca de Simão, nós o esperávamos em massa, para lhe beber os ensinos consoladores. Precipitamo-nos para ele, ansiosos todos de receber ao mesmo tempo os sagrados eflúvios da sua presença confortadora, mas, nesse dia, muitas mães compareceram à prédica, conduzindo os filhinhos que se confundiam em algazarra ensurdecedora, como um bando de passarinhos inconscientes. Simão e mais alguns discípulos começaram a repreender severamente os meninos, a fim de que não perdêssemos o encanto suave e doce das palavras do Mestre. Mas, quando menos esperávamos, sentou-se Ele na pedra costumeira e exclamou com indizível ternura: 

- "Deixai vir a mim os pequeninos, porque o reino do céu lhes pertence." Houve, então, prodigioso silêncio entre os ouvintes de Cafarnaum e os peregrinos que haviam chegado de Corazim e de Magdala, enquanto aqueles petizes trêfegos acorriam ao seu regaço amoroso, beijando-lhe a túnica com indefinível alegria.

Muitas crianças eram enfermas que as mães conduziam às pregações do lago, para que se curassem de mazelas antigas, ou de doenças consideradas incuráveis...

- O que me contas é de uma beleza edificante - exclamou Lívia, profundamente emocionada -; entretanto, possuindo à mão todos os recursos materiais, sinto que não poderei receber os altos benefícios do teu Mestre.

- E é pena, senhora, porque muitas mulheres de posição o acompanham na cidade. Não somos apenas os mais humildes que comparecemos às suas predicações, mas numerosas senhoras de destaque em Cafarnaum, esposas de funcionários de Herodes e de publicanos, assistem às lições carinhosas do lago, confundindo-se com os pobres e os escravos.

E o profeta não desdenha a ninguém. A todos convida para o reino de Deus e sua justiça. Contrariamente a todos os enviados do céu, que conhecemos, ele se esquiva dos favorecidos da sorte, para manter relações com as criaturas mais infelizes, considerando a todos como irmãos muito amados do seu coração...

Lívia escutava a palavra da serva com atenção e embevecimento. A figura daquele homem, famoso e bom, exercia atração singular no seu espírito.

E, enquanto seus grandes olhos expressavam o maior interesse pelas narrações encantadoras e simples da serva leal, não reparavam ambas que a doentinha as acompanhava com aguçada curiosidade, característica das almas infantis, não obstante a febre alta que lhe devorava o organismo.

Neste comenos, o senador, após as despedidas de Sulpício, busca o apartamento da pequena enferma, satisfazendo à sua ansiedade paternal.

Diante dele, calam-se as duas mulheres, entregando-se tão somente aos afazeres que as retinham junto ao leito da pequenina, agora gemendo dolorosamente.

Públio Lentulus debruçou-se sobre o leito da filha, com os olhos rasos de pranto.

Brincou com as suas mãozinhas mirradas e feridas, fazendo-lhe festas, com o coração tocado de infinita amargura.

- Filhinha, que queres hoje para dormir melhor? - perguntou com a voz estrangulada, arrancando lágrimas dos olhos de Lívia.

Comprar-te-ei muitos brinquedos e muitas novidades... Dize ao papai o que desejas... Copioso suor empastava as excrescências ulcerosas da doentinha, que deixava transparecer angustiosa ansiedade. Notava-se-lhe grande esforço, como se estivesse realizando o impossível para responder à pergunta paterna.

- Fala, filhinha - murmurava Públio, sufocado, observando-lhe o desejo de expressar qualquer resposta.

Buscarei tudo que quiseres... Mandarei a Roma um portador, especialmente para trazer todos os teus brinquedos...

Ao cabo de visível esforço, pôde a pequenina murmurar com voz cansada e quase imperceptível:

- Papai... eu quero... o profeta... de Nazaré...

O senador baixou os olhos, humilhado e confundido em face do imprevisto daquela resposta, enquanto Lívia e Ana, como se fossem tocadas por força invisível e misteriosa, pelo inopinado da cena, escondiam o rosto inundado de pranto.

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