Mensagens de Emmanuel. Valoriza os amigos. Respeita os adversários.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Tudo Passa


Todas as coisas, na Terra, passam...
Os dias de dificuldades, passarão...
Passarão também os dias de amargura e solidão...
As dores e as lágrimas passarão.
As frustrações que nos fazem chorar...
um dia passarão.
A saudade do ser querido que está longe, passará.

Dias de tristeza... Dias de felicidade...
São lições necessárias que, na Terra, passam, deixando no espírito imortal as experiências acumuladas.

Se hoje, para nós, é um desses dias repletos de amargura, paremos um instante.

Elevemos o pensamento ao Alto, e busquemos a voz suave da Mãe amorosa a nos dizer carinhosamente: isso também passará...

E guardemos a certeza, pelas próprias dificuldades já superadas, que não há mal que dure para sempre.

O planeta Terra, semelhante a enorme embarcação, às vezes parece que vai soçobrar diante das turbulências de gigantescas ondas.

Mas isso também passará, porque Jesus está no leme dessa Nau, e segue com o olhar sereno de quem guarda a certeza de que a agitação faz parte do roteiro evolutivo da humanidade, e que um dia também passará...

Ele sabe que a Terra chegará a porto seguro, porque essa é a sua destinação.

Assim, façamos a nossa parte o melhor que pudermos, sem esmorecimento, e confiemos em Deus,
aproveitando cada segundo, cada minuto que, por certo...
também passarão..."

" Tudo passa..........exceto DEUS!"
Deus é o suficiente!

Chico Xavier - Emmanuel

domingo, 15 de janeiro de 2017

Paciência e Nós




Quando as dificuldades atingem o apogeu, induzindo os companheiros mais valorosos a desertarem da luta pelo estabelecimento das boas obras, e prossegues sob o peso da responsabilidade que elas acarretam, na convicção de que não nos cabe descrer da vitória final...

Quando os problemas se multiplicam na estrada, pela invigilância dos próprios amigos, e te manténs, sem revolta, nas realizações edificantes a que te consagras...

Quando a injúria te espanca o nome, procurando desmantelar-te o trabalho, e continuas fiel às obrigações que abraçaste, sem atrasar o serviço com justificações ociosas...

Quando tentações e perturbações te ameaçam as horas, tumultuando-te os passos, e caminhas à frente, sem reclamações e sem queixas...

Quando te é lícito largar aos ombros de outrem a carga de atribuições sacrificiais que te assinala a existência, e não te afastas do serviço a fazer, entendendo que nenhum esforço é demais em favor do próximo...

Quando podes censurar e não censuras, exigir e não exiges...

Então, terás levantado a fortaleza da paciência no reino da própria alma.

Nem sempre passividade significa resignação construtiva.

Raramente pode alguém demonstrar confor-midade, quando se encontre sob os constrangimentos da provação.

Paciência, em verdade, é perseverar na edifi-cação do bem, a despeito das arremetidas do mal, e pros-seguir corajosamente cooperando com ela e junto dela, quando nos seja mais fácil desistir.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Instrução


Já se disse que duas asas conduzirão o espírito humano à presença de Deus.
Uma chama-se Amor, a outra, Sabedoria.
Pelo amor, que, acima de tudo, é serviço aos semelhantes, a criatura se ilumina e aformoseia por dentro, emitindo, em favor dos outros, o reflexo de suas próprias virtudes; e, pela sabedoria, que começa na aquisição do conhecimento, recolhe a influência dos vanguardeiros do progresso, que lhe 
comunicam os reflexos da própria grandeza, impelindo-a para o Alto.

Através do amor valorizamo-nos para a vida.
Através da sabedoria somos pela vida valorizados.
Daí o imperativo de marcharem juntas a inteligência e a bondade.
Bondade que ignora é assim como o poço amigo em plena sombra, a dessedentar o viajor sem ensinar-lhe o caminho.
Inteligência que não ama pode ser comparada a valioso poste de aviso, que traça ao peregrino informes de rumo certo, deixando-o sucumbir ao tormento da sede.
Todos temos necessidade de instrução e de amor. 
Estudar e servir são rotas inevitáveis na obra de elevação.
Toda a cultura intelectual é formada em cadeia de gradativa expansão.
As civilizações sucedem-se, ininterruptas, ao influxo da herança mental.
A arte, na palavra ou na música, no buril ou no pincel, evolui e se aprimora, por intermédio da repercussão a exprimir-se no trabalho dos cultivadores do belo, que se inspiram uns nos outros.
A escola é um centro de indução espiritual, onde os mestres de hoje continuam a tarefa dos instrutores de ontem.
O livro representa vigoroso ímã de força atrativa, plasmando as emoções e concepções de que nascem os grandes movimentos da Humanidade, em todos os setores da religião e da ciência, da opinião e da técnica, do pensamento e do trabalho. Por esse dínamo de energia criadora, encontramos os mais adiantados serviços de telementação, porqüanto, a imensas distâncias, no espaço e no tempo, incorporamos as idéias dos espíritos superiores que passaram por nós, há séculos.

Sócrates reflete-se nas páginas dos discípulos que lhe comungavam a intimidade, e, ainda hoje, consumimos os elevados pensamentos de que foi ele o portador.
Retrata-se Jesus nos livros dos apóstolos que lhe dilataram a obra, e temos no Evangelho um espelho cristalino em que o Mestre se reproduz, por divina reflexão, orientando a conduta humana para a construção do Reino de Deus entre as criaturas.

Conhecer é patrocinar a libertação de nós mesmos, colocando-nos a caminho de novos horizontes na vida.
Corre-nos, pois, o dever de estudar sempre, escolhendo o melhor para que as nossas idéias e exemplos reflitam as idéias e os exemplos dos paladinos da luz.

Lição 4 do Livro Pensamento e Vida
Autor Emmanuel
Psicografia Chico Xavier

Cooperação



Para que alguém dirija com êxito e eficiência uma empresa importante, não lhe basta a nomeação para o encargo.
Exige-se-lhe um conjunto de qualidades superiores para que a obra se consolide e prospere. Não apenas autoridade, mas direção com discernimento.
Não só teoria e cultura, mas virtude e juízo claro de proporções.
Dilatados recursos nas mãos, a serviço de uma cabeça sem rumo, constituem tesouros nos braços da insensatez, assim como a riqueza sem orientação é navio à matroca.
Quem governa emitirá forças de justiça e bondade, trabalho e disciplina, para atingir os objetivos da tarefa em que foi situado.
Quando o poder é intemperante, sofre o povo a intranquilidade e a mazorca, e, quando a inteligência não possui o timão do caráter sadio, espalha, em torno, a miséria e a crueldade.
Daí, conhecermos tantos tiranos nimbados de grandeza mental e tantos gênios de requintada sensibilidade, mas atolados no vício.
No mundo íntimo, a vontade é o capitão que não pode relaxar no mister que lhe é devido.
E assim como o administrador de um serviço reclama a ajuda de assessores corretos, a vontade não prescindirá da ponderação e da lógica, conselheiros respeitáveis na chefia das decisões.
No entanto, urge que o senso de cooperação seja chamado a sustentar-lhe os impulsos.
Nas linhas da atividade terrestre, quem orienta com segurança não ignora a hierarquia natural que vige na coexistência de todos os valores indispensáveis à vida.
Na confecção do agasalho comum, o fio contará com o apoio da máquina, a máquina esperará pela competência do operário, o operário edificar-se-á no técnico que lhe supervisiona o trabalho, o técnico arrimar-se-á na diretoria da fábrica e a diretoria da fábrica equilibrar-se-á no movimento da indústria, dele extraindo o combustível econômico necessário à alimentação do núcleo de serviço que lhe obedece aos ditames.
Observamos, assim, que no Estado Individual a vontade, para satisfazer à governança que lhe compete, sem colapsos de equilíbrio, precisa socorrer-se da colaboração a fim de que se lhe clareie a atividade. 
A cooperação espontânea é o supremo ingrediente da ordem.
Da Glória Divina às balizas subatômicas, o Universo pode ser definido como sendo uma cadeia de vidas que se entrosam na Grande Vida.
Cooperação significa obediência construtiva aos impositivos da frente e socorro implícito às privações da retaguarda.
Quem ajuda é ajudado, encontrando, em silêncio, a mais segura fórmula de ajuste aos processos da evolução.

Emmanuel
Francisco Cândido Xavier

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Jesus

Nossa evolução espiritual e moral é muito pequena para definir a figura de Jesus. E nosso vocabulário muito pobre para descrever a grandeza desse espirito.

Lendo e relendo o Livro "Há Dois Mil Anos" anotei esse trecho:

"O que mais me assombrava - dizia Públio Lentulus, impressionado - é que Jesus não era, que se soubesse, um doutor da Lei ou sacerdote formado pelas escolas humanas. 
Sua palavra, entretanto, estava como que ungida de uma graça divina. 
O olhar sereno e indefinível penetrava o fundo da alma e o sorriso generoso tinha a complacência de quem, possuindo toda a verdade, sabia compreender e perdoar os erros humanos. 
Seus ensinos, diariamente meditados por mim, nestes últimos anos, são revolucionários e novos, pois arrasam todos os preconceitos de raça e de família, unindo as almas num grande amplexo espiritual de fraternidade e tolerância. 
A filosofia humana jamais nos disse que os aflitos e pacíficos são bem-aventurados no céu; entretanto, com as suas lições renovadoras, modificamos o conceito de virtude, que, para o Deus soberano e misericordioso das Alturas, não está no homem mais rico e poderoso do mundo, mas no mais justo e mais puro, embora humilde e pobre".

*****

Esse, é o JESUS de quem tanto falamos, muitas das vezes por hábito. E muitos até usam o seu NOME para engrandecimento pessoal, e até para agredir e defender interesses.
Ainda hoje somos aquelas mesmas pessoas que o apedrejaram e pregaram na cruz porque somos incapazes de um gesto de piedade. Somos piedosos com quem comunga os mesmos interesses, qual o mérito que existe nisso?
Jesus é simbolo de amor, perdão, humildade, solidariedade. 
É a solução perfeita para resolvermos todas as angustias, principalmente as que vivenciamos nos dias de hoje.
Somos os errantes nos caminhos da vida. A meta é chegar lá. Só não sabemos quando.
Mesmo assim sabemos que nos assiste e nos dará forças e coragem para perdoar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Nos derradeiros minutos de Pompeia .FIM

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel




Em radiosa manhã do ano de 79, toda a Pompeia despertou em rumores festivos.

A cidade havia recebido a visita de um ilustre questor do Império e, naquele dia, todas as ruas se movimentavam em alacridade barulhenta, aguardando-se, para breves horas, as festas deslumbrantes do anfiteatro, com que a administração desejava celebrar o evento, em meio da alegria geral.

Para o velho senador Públio Lentulus, o acontecimento se revestia de importância especial, porquanto o distinto hóspede de Pompeia lhe trazia significativa mensagem, bem como honrosas deferências de Tito Flavius Vespasiano, então imperador, na sucessão de seu pai.

Ainda mais.

No séquito do questor ilustre vinha, igualmente, Plínio Severus, em plenitude de maturidade, totalmente regenerado e julgando-se agora redimido no conceito da esposa e daquele que seu coração considerava como pai.

Nesse dia, enquanto Ana comandava, verbalmente, as atividades domésticas nos preparativos da recepção, mobilizando escravos e servos numerosos, Públio e filha se abraçavam comovidos, em face da surpresa que o destino lhes reservara, embora tardiamente. Avisados por mensageiros da caravana de patrícios ilustres, davam larga às emoções mais gratas do espírito, na doce perspectiva de acolherem o filho pródigo, tantos anos distante de seus braços amigos.

Antes do meio-dia, um deslumbramento de viaturas, de cavalos ajaezados e de joias faiscantes sobre vestiduras reluzentes se deparava às portas da vila plácida e graciosa, provocando a admiração e o interesse curioso das vizinhanças. E, em seguida, foi um turbilhão de abraços, carinhos, palavras confortadoras e generosas.

Quase todos os patrícios, em excursão pela Campânia, conheciam o senador e sua família, representando esse acontecimento um suave encontro de corações.

Públio Lentulus abraçou Plínio, demoradamente, como se fizesse a um filho bem-amado, que voltasse de longe e cuja ausência houvera sido excessivamente prolongada. Experimentava no íntimo impulsos de extravasão de afeto, que o seu coração dominou, para não provocar a admiração injustificada dos circunstantes.

- Meu pai, meu pai! - disse o filho de FIamínio em tom discreto e quase imperceptível aos seus ouvidos, quando lhe beijava a fronte encanecida - já me perdoastes?

Ó filho, como tardaste tanto?!... Quero-te como sempre e que o céu te abençoe!... - respondeu o velho cego, emocionado.

Daí a instante, após o doce encontro de Plínio e sua mulher, exclamou o questor em meio do silêncio geral:

- Senador, honro-me em trazer-vos preciosa lembrança de César, acompanhada de uma mensagem de reconhecimento da alta administração política do Império, um dos mais fortes e mais justos motivos de minha permanência em Pompeia, e incumbo o nosso amigo Plínio Severus de vos entregar, neste momento, estas relíquias que representam uma das mais significativas homenagens do Império ao esforço de um dos seus mais dedicados servidores!...

Públio Lentulus sentia bem a suprema emoção daquela hora.

A homenagem do imperador, a carinhosa presença dos amigos, a volta do genro aos seus braços paternos, representavam para o seu coração uma alegria entontecedora.

Seus olhos, entretanto, nada podiam ver. Do seio da sua noite, ouvia aqueles apelos generosos, como um desterrado da luz, de quem se exumassem as recordações mais queridas e mais doces.

- Amigos - disse, enxugando uma lágrima furtiva nos olhos apagados -, tudo isso é para mim a maior recompensa de uma vida inteira.

Nosso imperador é um espírito excessivamente generoso, porque a verdade é que nada fiz para merecer o reconhecimento da pátria.

Minh'alma, todavia, exulta convosco, meus patrícios, porque a nossa reunião nesta casa é símbolo de união e trabalho, nos elevados encargos do Império!...

Nesse instante, contudo, alguém lhe tomava as mãos encarquilhadas, levando-as aos lábios úmidos, deixando, porém, nas pequeninas conchas das rugas, duas lágrimas ardentes.

Plínio Severus, num gesto espontâneo, ajoelhara-se e, osculando-lhe as mãos, dava expansão ao seu afeto e reconhecimento, ao mesmo tempo que lhe fazia entrega da mensagem imperial que o velho senador não mais podia ler.

Públio Lentulus chorava, sem poder pronunciar uma única palavra, tal a emoção que lhe oprimia o íntimo, enquanto os circunstantes lhe acompanhavam as atitudes com os olhos rociados de pranto.

Nesse ínterim, o filho de Flamínio não mais se conteve e, consagrando a sua regeneração espiritual, exclamava enternecido:

- Meu querido pai, não choreis, se aqui nos achamos todos para compartilhar vossa alegria! Diante de todos os nossos amigos romanos, com a homenagem do Império, eu vos entrego o meu coração regenerado para sempre!... Se estais agora cego, meu pai, não o estais pelo espírito que sempre procurou dissipar as sombras e remover tropeços do nosso caminho!... Continuareis guiando os meus, ou, melhor, os nossos passos, com as vossas antigas tradições de sinceridade e de esforço, na retidão do proceder!... Voltareis comigo para Roma e, junto de vosso filho reabilitado, organizareis novamente o palácio do Aventino... Serei, então, para todo o sempre, uma sentinela do vosso espírito, para vos amar e proteger!... Tomarei minha esposa a meu inteiro cuidado e, dia a dia, tecerei para nós três uma auréola de venturas novas e indefiníveis, com os milagres da minha afeição imorredoura! Em nossa casa do Aventino florescerá uma alegria nova, porque hei-de prover todas as vossas horas com o amor grande e santo de quem, conhecendo todas as duras experiências da vida, sabe agora valorizar seus próprios tesouros!...

O velho senador, alquebrado pelos anos e pelos mais rudes sofrimentos, conservava-se de pé, acariciando os cabelos do genro, igualmente prateados pelos invernos da vida, enquanto pesadas lágrimas rompiam a muralha da sua noite para enternecer o coração de todos, numa angustiosa e indefinível emotividade. Flávia Lentúlia chorava, igualmente, dominada por íntimas sensações de felicidade, ao cabo de tão longas e desalentadas esperanças!... Alguns amigos desejavam quebrar a solenidade dolorosa daquele quadro imprevisto, mas o próprio questor, que chefiava a caravana de patrícios ilustres, se ocultara num recanto, sensibilizado até às lágrimas.

Públio Lentulus, contudo, compreendendo que somente ele próprio poderia modificar as disposições daquela paisagem sentimental, reagiu às emoções, exclamando:

- Levanta-te, meu filho!... Nada fiz para me agradeceres de joelhos...

Porque me falas deste modo?... Voltaremos para Roma, sim, em breves dias, pois todos os teus desejos são os nossos... regressaremos à nossa casa do Aventino, onde, juntos, viveremos para relembrar o pretérito e venerar a memória dos nossos antepassados!

E, depois de uma pausa, continuou, em exclamações quase otimistas:

- Meus amigos, sinto-me comovido e grato pela gentileza e afeto de todos vós! Mas, que é isso? Todos silenciosos? Lembrai-vos de que não vos vejo senão através das palavras. E a festa de hoje?...

As exclamações do senador quebraram o silêncio geral, voltando-se aos intensos ruídos de minutos antes. A torrente das palestras casava-se ao tinir das taças de vinho, em seus pesados estilos da época.

Enquanto as visitas se reuniam no triclínio espaçoso para libações ligeiras, Plínio Severus e a esposa trocavam confidências ternas, ora sobre os projetos em perspectiva para os anos que ainda lhes restavam no mundo, ora quanto às recordações dos dias lentos e amargurados do passado distante.

Insistentes chamados, porém, requeriam a presença do questor e comitiva, no local dos festejos.

O circo fora preparado a rigor e não se perdera nenhuma oportunidade para a realização das menores minudências próprias das grandes festividades romanas.

E ao mesmo tempo que todos se despediam do senador e de sua filha, num deslumbramento de felicidade mundana, Plínio Severus dirigia-se a Públio nestes termos, depois de abraçar ternamente a companheira:

- Meu pai, levado pelas circunstâncias, sou compelido a acompanhar o questor nas festividades populares, mas estarei de regresso em breves horas, para ficar convosco um mês, de modo a tratarmos do nosso regresso a Roma.

- Muito bem, meu filho - respondia o velho senador, sumamente confortado -, acompanha os nossos amigos e representa-me junto das autoridades. Dize a todos da minha emoção e do meu agradecimento sincero.

A sós novamente, o senador sentiu que aquelas comoções cariciosas e alegres eram, talvez, as últimas da sua vida. No velho peito, o coração batia-lhe descompassado, como se pesada nuvem de pensamentos tristes o envolvesse. Sim, a volta de Plínio aos seus braços paternos era a alegria suprema da sua velhice desalentada. Sabia, agora, que a filha poderia contar com o esposo, nas estradas do seu tormentoso destino, e que a ele, Públio, somente competia aguardar a morte, resignado. Ponderando as palavras afetuosas do filho de FIamínio e os seus apelos ao passado remoto, Públio Lentulus considerou, intimamente, que era muito tarde para regressar ao Aventino e que a volta a Roma apenas devia significar, para o seu espírito precito, o símbolo da sepultura.

Em pleno espetáculo, Plínio Severus, já no outono da vida, arquitetava os planos de futuro. Procuraria resgatar todas as faltas antigas, perante os seus parentes afetuosos e queridos; assumiria a direção de todos os negócios do velho pai pelo coração, aliviando-o de todas as angustiosas preocupações da vida material.

De vez em quando, os aplausos da multidão lhe interrompiam os devaneios. A maioria da população de Pompeia ali estava em plena festa, ovacionando os triunfadores. Gente de toda a redondeza e muito particularmente de Herculanum, acorrera pressurosa ao divertimento predileto daquelas épocas recuadas. De permeio com os atletas e gladiadores, estavam os músicos, os cantores e os dançarinos.

Tudo era um farfalhar de sedas, um delicioso chocalhar de alegrias ruidosas, ao som de flautas e alaúdes.

Em dado instante, porém, a atenção geral foi solicitada por um fato estranho e incompreensível. Do cimo do Vesúvio elevava-se grossa pirâmide de fumo, sem que ninguém atinasse com a causa do fenômeno insólito.

Continuavam os jogos animadamente, mas agora, no seio da coluna fumarenta que se elevava em caprichosos rolos para o alto, surgiam impressionantes labaredas...

Plínio Severus, como todos os presentes, se surpreendia com o fenômeno estranho e inexplicável.

Em minutos breves, no entanto, estabeleciam-se no anfiteatro a confusão e o terror.

Em meio da perturbação geral e imprevista, o filho de Flamínio ainda teve tempo de se aproximar do questor, então rodeado dos seus familiares que residiam na cidade, o qual lhe falou com otimismo, embora não conseguisse dissimular de todo as Íntimas inquietações:

- Meu amigo, tenhamos calma! Pelas barbas de Júpiter!... Então, por onde andarão a nossa coragem e a nossa fibra?

Mas, em breves instantes a terra lhes tremia sob os pés, em vibrações desconhecidas e sinistras. Algumas colunas tombavam ao solo, pesadamente, enquanto numerosas estátuas rolavam dos nichos improvisados, recamados de ouro e pedrarias.

Abraçando-se, então, à filha e cercado de numerosas senhoras, o questor disse altamente preocupado:

- Plínio, demandemos as galeras, sem demora!...

Mas, o oficial romano não mais ouviu os apelos. Ansiosamente, atirou-se à faina de romper a multidão, que desejava retirar-se em massa do circo, motivando o esmagamento de crianças e pessoas mais idosas.

Ao cabo de sobre-humano esforço, conseguiu alcançar a rua, mas todos os lugares estavam tomados por gente que saía de casa, desarvorada, aos gritos de "Fogo, Fogo!... O Vesúvio..."

Plínio verificou que todas as vias públicas estavam repletas de gente desesperada, de viaturas e de animais espavoridos.

Com enorme dificuldade, vencia todos os obstáculos, mas o Vesúvio lançava agora, para o céu, uma fogueira indescritível e imensa, como se a própria Terra houvera incendiado as entranhas mais profundas.

Uma chuva de cinza, a princípio quase imperceptível, começou a cair, enquanto o solo continuava a tremer com ruídos surdos, aterradores.

De instante a instante, ouvia-se o estrondo pavoroso de colunas derribadas ou de edifícios desmoronados pelos abalos sísmicos, ao mesmo tempo que o fumo do vulcão ia eclipsando a confortadora claridade solar.

Mergulhada em penumbra espessa e tomada de terror indizível, Pompeia assistia aos seus últimos instantes, numa aflição desesperada...

Na vila de Lentulus, os escravos perceberam imediatamente o perigo próximo. Nos primeiros momentos, os cavalos relinchavam estranhamente e as aves inquietas fugiam em desespero.

Após a queda das primeiras colunas que sustentavam o edifício, todos os servos do senador abandonaram precipitadamente os postos, desejosos de conservar noutra parte os bens preciosos da vida. Somente Ana ficara junto dos amos, dando-lhes conhecimento dos horrores do ambiente.

Os três, numa justificada inquietude, escutaram o rumor horrível da inolvidável catástrofe do Império. A própria vila estava já meio destruída, penetrando as cinzas pelos desvãos abertos pela queda dos telhados e começando a sua obra de lenta sufocação. Ansiavam todos pelo regresso imediato de Plínio, a fim de resolverem as providências a adotar, mas o velho senador, cujo coração não se iludia nos seus amargurados pressentimentos, exclamou em tom quase resignado:

- Ana, traze a cruz de Simeão e vamos à prece que te foi ensinada pelos discípulos do Messias!... Diz-me o coração que é chegado o fim da nossa romagem pela Terra!

Enquanto a serva buscava apressadamente a relíquia do ancião de Samaria, afrontando o perigo das paredes oscilantes, Públio Lentulus ouvia o surdo rumor da terra dilacerada e os gritos apavorantes e sinistros do povo, misturados ao barulho tremendo do vulcão que, transformado em fornalha imensa e indescritível, enchia toda a cidade de cinzas e lavas ferventes. Lembrou-se, então, o senador, das afirmativas do Cristo nos dias idos da Galileia, quando lhe asseverava que toda a grandeza romana era bem miserável e num minuto breve poderia o Império ser reduzido a um punhado de pó. O coração batia-lhe descompassado naquele minuto extremo, mas a velha serva havia regressado e ajoelhara-se, serena, guardando nas mãos a lembrança de Simeão e de Lívia, orando em voz comovedora e profunda:

"Pai Nosso, que estais no céu... santificado seja o vosso nome...venha a nós o vosso reino... seja feita a vossa vontade... assim na Terra como nos céus..."

Nesse instante, porém, a voz da serva emudeceu subitamente, enquanto seu corpo rolava sob novos escombros, sentindo-se ela amparada, espiritualmente, pelo venerável samaritano que a conduziu, imediatamente, às mais elevadas esferas espirituais, tal a natureza do seu coração iluminado nas dores e testemunhos mais angustiosos do aprendizado terrestre.

- Ana!... Ana!... - exclamavam Públio e Flávia, soluçantes, sentindo ambos pela primeira vez o infortúnio do insulamento supremo, sem uma luz e sem um guia, em pleno desamparo!

Alguém, contudo, rompera todos os destroços e chegava, rápido, até àquela câmara interior, e, abraçando Públio e sua filha gritava em voz opressa: - "Flávia! meu pai! aqui estou..."

Plínio chegava, afinal, para o instante derradeiro. Flávia Lentúlia apertou-o carinhosamente nos braços, enquanto o velho senador semi asfixiado tomava as mãos do filho, abraçando-se os três num amplexo derradeiro.

Flávia e Plínio quiseram falar, mas grossa camada de cinzas penetrava o interior, pelas fendas enormes da vila meio destruída...

Mais um estremeção do solo e as colunas que ainda restavam de pé se abateram sobre os três, roubando-lhes as últimas energias e fazendo-os cair assim, enlaçados para sempre, sob um montão de escombros...

Naquelas sombras espessas, todavia, pairavam criaturas aladas e leves, em atitudes de prece, ou confortando ativamente o coração abatido dos míseros condenados à destruição.

Sobre os três corpos soterrados permanecia a entidade radiosa de Lívia, junto de numerosos companheiros que cooperavam, com devotamento e precisão, nos serviços de desprendimento total dos moribundos.

Pousando as mãos luminosas e puras na fronte abatida do companheiro exausto e agonizante, Lívia elevou os olhos ao firmamento enegrecido e orou com a suavidade da sua fé e dos seus sentimentos diamantinos.

- Jesus, meigo e divino Mestre - esta hora angustiosa é bem um símbolo dos nossos erros e crimes, através de avatares tenebrosos; mas, vós, Senhor, sois toda a esperança, toda a sabedoria e toda a misericórdia!... Abençoai nossos espíritos neste momento ríspido e doloroso!... Suavizai os tormentos da alma gêmea da minha, concedendo-lhe neste instante o alvará da liberdade!... Aliviai, magnânimo Salvador do mundo, todas as suas magoas pungentes, suas desoladoras amarguras!...

Concedei-lhe repouso ao coração angustiado e dolorido, antes do seu novo regresso à trama escura das reencarnações no planeta do exílio e das lágrimas dolorosas... Ele já não é mais, Senhor, o vaidoso déspota de outrora, mas um coração inclinado ao bem e â piedade pregados pela vossa doutrina de amor e redenção; sob o peso das provações amargas e remissoras, seus pendores se espiritualizaram a caminho da vossa Verdade e da vossa Vida!...

E, enquanto Lívia orava, o senador abraçado aos filhos, já cadáveres, desferia o último gemido, com pesada lágrima a lhe cintilar nos olhos mortos...

Numerosas legiões de seres espirituais volitaram por vários dias, nos céus caliginosos e tristes de Pompeia.

Ao cabo de longas perturbações, Públio Lentulus e filhos despertaram, ali mesmo, sobre o túmulo nevoento da cidade morta.

Em vão o senador invocou a presença de Ana ou de algum outro servo, na penosa ilusão da vida material, persistindo em seu organismo psíquico as impressões da cegueira material, que representara o longo suplício dos seus anos derradeiros, na indumenta da carne.

Contudo, após as primeiras lamentações, ouviu uma voz que lhe dizia brandamente:

- Públio, meu amigo, não apeles mais para os recursos do planeta terreno, porque todos os teus poderes terminaram com os teus despojos, na face escura e triste da Terra! Apela para Deus Todo-Poderoso, cuja misericórdia e sabedoria nos são dadas pelo amor do seu Cordeiro, que é Jesus-Cristo!...

Públio Lentulus não chegou a lobrigar o interlocutor, mas identificou a voz de Flamínio Severus, desabafando, então, numa torrente de preces e de lágrimas fervorosas.

Embora as dedicações constantes de Lívia, havia já alguns dias que seu espírito se encontrava presa de pesadelos angustiosos, nos primeiros instantes da vida do Além, assistido, porém, continuamente por Flamínio e outros companheiros abnegados, que o aguardavam no plano espiritual.

Contudo, depois daquelas súplicas sinceras que lhe fluíam do mais recôndito do coração, sentiu que seu mundo interior se desanuviara...

Junto dos filhos queridos, recobrou a visão e reconheceu os entes amados, com lágrimas de amor e reconhecimento, nos pórticos do além túmulo.

Ali se conservavam numerosas personagens desta história, como Flamínio, Calpúrnia, Agripa, Pompílio Crasso, Emiliano Lucius e muitos outros; mas, em vão, os olhos angustiosos do ex-senador procuravam alguém na assembleia afetuosa e amiga.

Depois de todas as expansões de carinho e alegria dirigiu-se-lhe Flamínio, intencionalmente.

- Estranhas a ausência de Lívia - dizia ele com o seu olhar complacente e generoso -, mas não poderás vê-la, enquanto não conseguires despir, pela prece e pelos bons desejos, todas as impressões penosas e nocivas da Terra. Ela se tem conservado junto ao teu coração, em rogativas sinceras e fervorosas pelo teu reerguimento, mas o nosso grupo ainda é de espíritos muito apegados ao orbe, e esperávamos o regresso dos seus últimos componentes, ainda na Terra, para podermos, em conjunto, estabelecer novo roteiro às reencarnações vindouras.. Séculos de trabalho e de dor nos esperam na senda da redenção e do aperfeiçoamento, mas precisamos, antes de tudo, buscar a fortaleza precisa em Jesus, fonte de todo o amor e de toda a fé, para as elevadas realizações do nosso pensamento!..

Públio Lentulus chorava, tocado por emoções estranhas e indefiníveis.

- Meu amigo - continuou Flamínio, amoroso -, pede a Jesus, por todos nós, a misericórdia dessa claridade de um novo dia!...

Públio, então, ajoelhou-se e, banhado em lágrimas, concentrou o coração em Jesus numa rogativa ardente e silenciosa... Ali, na soledade da sua alma intrépida e sincera, apresentava ao Cordeiro de Deus o seu arrependimento, suas esperanças para o porvir, suas promessas de fé e de trabalho para os séculos porvindouros!...

Todos os presentes lhe acompanharam a oração, tomados de pranto e mergulhados em vibrações de consolação inefável.

Viram, então, rasgar-se um caminho luminoso e florido nos céus escuros e tristes da Campânia, e, por ele, como se descessem dos jardins fulgurantes do Paraíso, surgiram Lívia e Ana abraçadas, como se ainda ali enviasse Jesus um ensinamento simbólico àquelas almas prisioneiras da Terra, de modo a lhes revelar que, em qualquer posição, pode a alma encarnada buscar o seu reino de luz e de paz, de vida e de amor, tanto na túnica humilde do escravo, como na pomposa indumentária dos senhores.

O velho patrício contemplou a figura radiosa da companheira e, extasiado, fechou os olhos banhados no pranto da compunção e do arrependimento; mas, em breve, dois lábios de névoa pousavam-lhe na fronte, qual o leve roçar de um lírio divino. E, enquanto seu coração maravilhado se lavava nas lágrimas da alegria e do reconhecimento a Jesus, toda a caravana, ao impulso poderoso das preces fervorosas daquelas duas almas redimidas, elevava-se a esferas mais altas, para repouso e aprendizado, antes de novas etapas de regeneração e trabalhos purificadores, a lembrar um grupo maravilhoso de luminosas falenas do Infinito!...

FIM

Se lhe agradou a leitura deste livro, deverá conhecer a reencarnação de Publius, em "50 Anos Depois", outro romance do mesmo Autor.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Lembranças amargas - Segunda Parte IX

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel


Logo após os penosos acontecimentos de 70 e de conformidade com os desejos de Flávia, o senador passou a residir na vivenda confortável que ele possuía em Pompeia, longe dos bulícios da Capital. 

Ali poderia entregar-se melhor às suas meditações.

Para lá transportara então, o velho político, todo o seu volumoso arquivo, bem como as lembranças mais carinhosas e mais importantes da sua vida. Dois libertos gregos, extremamente cultos, foram contratados para os trabalhos de escrita e leitura, e assim é que, no seu retiro, se mantinha ao corrente de todas as novidades políticas e literárias de Roma.

Nesses tempos recuados, quando o homem se encontrava ainda longe dos benefícios preciosos da invenção de Gutenberg, os manuscritos romanos eram raros e sumamente disputados pelas elites intelectuais da época. Uma casa editora dispunha, quase sempre, de uma centena de escravos calígrafos, inteligentes, que confeccionavam mais ou menos mil livros por ano.

Públio, além disso possuía em Roma sinceras e numerosas amizades ao seu serviço, recebendo em Pompeia todos os ecos dos acontecimentos da cidade que lhe absorvera as melhores energias da vida.

Amiudadamente, recebia também notícias de Plínio Severus, por intermédio de amigos desvelados, confortando-se com as informações sobre sua conduta, agora digna, porquanto, pelos méritos conquistados nas Gálias, fora transferido, depois de 73, para Roma, onde, pela correção do proceder, embora tardiamente, conquistara posição respeitável e brilhante, prosseguindo nas tradições da probidade paterna, nos cargos administrativos do Império.

Plínio, todavia, não mais voltara a procurar a esposa nem aquele que o destino o compelia a considerar como um pai dedicado e carinhoso, embora não ignorasse o supremo infortúnio dos seus familiares. No íntimo, o antigo oficial romano não desdenhava a ideia de regressar ao seio dos entes queridos; contudo, desejava fazê-lo em condições de dissipar todas as dúvidas quanto no considerável esforço próprio, de sua regeneração. Galgando postos de confiança na administração dos Flavianos, queria uma posição de maiores vantagens morais, de maneira a levar aos seus íntimos a certeza da sua reabilitação espiritual.

Corria o ano de 78, na placidez das paisagens formosas da Campânia. Enquanto Tibur representava uma estação de cura e descanso regenerador para os romanos mais ricos, Pompeia era bem a cidade dos romanos mais sadios e mais felizes. Em suas vias públicas encontravam-se, a cada passo, os mármores soberbos e o bom gosto das mais belas construções da capital aristocrática do Império. Em seus templos suntuosos, aglomeravam-se assembleias brilhantes, de patrícios educados e cultos, que se instalavam na linda cidade, povoada de cantores e poetas, ao pé do Vesúvio, e iluminada por  um céu de maravilhas, cheio de ridente sol ou bordado de estrelas cintilantes.

Públio Lentulus, agora, sobremaneira apreciava a palavra simples e convincente de Ana, que envelhecera ao lado de Flávia, qual bela figura de marfim antigo. Era de lhe ver o interesse, a comoção, a alegria ao ouvi-la sobre a excelência dos princípios cristãos, quando se entretinham em recordações da Judeia distante. 

Nessas amáveis palestras, entre os três, logo após o jantar, discutia-se a figura do Cristo e as sublimadas ilações da sua doutrina, conseguindo o senador, pela força das circunstâncias, meditar melhor os grandiosos postulados do Evangelho, ainda fragmentário e quase desconhecido, para ligar os princípios generosos e santos do Cristianismo à personalidade do seu divino fundador.

Longas horas ficavam ali, no terraço amplo, sob a luz branda das estrelas e usufruindo a carícia das brisas da noite, que eram como que bafejos de inspirações celestes, aquelas três criaturas, em cujas frontes se vincavam as experiências dos anos.

Por vezes, Flávia fazia um pouco de música, que lhe saía da harpa como vibrante gemido de dor e de saudade, alcançando o coração paterno mergulhado no abismo das reminiscências dolorosas.

É que a música dos cegos é sempre mais espiritualizada e mais pura, porque, na sua arte, fala a alma profundamente, sem as emoções dispersas dos sentidos materiais.

Uma noite, obedecendo ao hábito de muitos anos, vamos encontrar aquelas três criaturas no espaçoso terraço da vila de Pompeia, em doces rememorações.

Havia mais de sete anos que quase todas as palestras versavam, ali, sobre a personalidade do Messias e a excelsa pureza da sua doutrina, observada, antes de tudo, a precisa discrição, porquanto os adeptos do Cristianismo continuavam perseguidos, embora com menos crueldade.


Em todo caso, invariavelmente, a conversação era de enfermos e de velhos, sem provocar o interesse dos amigos mais moços e mais felizes.

Depois de algumas lembranças e comentários de Ana, a respeito da angustiosa tarde do Calvário, exclamava o velho senador em tom convencido:

- De mim para comigo, tenho a certeza de que Jesus ficará para sempre no mundo, como o mais elevado símbolo de consolação e fortaleza moral para todos os sofredores e para todos os tristes!...

Desde os primeiros dias de minha cegueira material procuro, intimamente, compreender-lhe a grandeza e não consigo apreender toda a extensão da sua excelsitude e dos seus ensinos.

Lembro-me, como se fosse ontem, do crepúsculo formoso em que o vi pela primeira vez, ao longo das margens do Tiberíades...

- Eu também - murmurou Ana - não consigo olvidar aquelas tardes deliciosas e claras em que todos os servos e sofredores de Cafarnaum nos reuníamos à margem do grande lago, esperando o suave enlevo das suas palavras.

E como se estivesse contemplando o desfile de suas recordações mais queridas, com os olhos da imaginação, a velha serva continuava:

- O Mestre apreciava a companhia de Simão e dos filhos de Zebedeu e, quase sempre, era em uma de suas barcas que ele vinha, solicito, atender às nossas rogativas...

- O que mais me assombrava - dizia Públio Lentulus, impressionado - é que Jesus não era, que se soubesse, um doutor da Lei ou sacerdote formado pelas escolas humanas. Sua palavra, entretanto, estava como que ungida de uma graça divina. O olhar sereno e indefinível penetrava o fundo da alma e o sorriso generoso tinha a complacência de quem, possuindo toda a verdade, sabia compreender e perdoar os erros humanos. Seus ensinos, diariamente meditados por mim, nestes últimos anos, são revolucionários e novos, pois arrasam todos os preconceitos de raça e de família, unindo as almas num grande amplexo espiritual de fraternidade e tolerância. A filosofia humana jamais nos disse que os aflitos e pacíficos são bem-aventurados no céu; entretanto, com as suas lições renovadoras, modificamos o conceito de virtude, que, para o Deus soberano e misericordioso das Alturas, não está no homem mais rico e poderoso do mundo, mas no mais justo e mais puro, embora humilde e pobre.

Sua palavra compassiva e carinhosa espalhou ensinamentos que somente hoje posso compreender, na sombra espessa e triste dos meus sofrimentos..

- Meu pai - perguntou Flávia Lentúlia, extremamente interessada na conversação -, chegastes a ver o profeta muitas vezes?...

- Não, filha. Antes do dia nefasto de sua morte infamante na cruz, somente o vi uma vez, ao tempo em que eras pequenina e doente. Isso bastou, contudo, para que eu recebesse, nas suas palavras sublimes, luminosas lições para toda a vida. Só hoje entendo as suas exortações amigas, compreendendo que a minha existência foi bem uma oportunidade perdida!... Aliás, já naquele tempo, sua profunda palavra me dizia que eu defrontava, no minuto do nosso encontro, o maravilhoso ensejo de todos os meus dias, acrescentando, na sua extraordinária benevolência, que eu poderia aproveitá-lo naquela época ou daí a milênios, sem que me fosse possível apreender o sentido simbólico de suas palavras...

- Todas as concessões de Jesus se esteavam na Verdade santificada e consoladora - acrescentou Ana, agora gozando de toda a intimidade com os seus senhores.

- Sim - exclamou Públio Lentulus, concentrado nas suas reminiscências -, minhas observações pessoais autorizam-me a crer da mesma forma.

Se eu tivesse aproveitado a exortação de Jesus naquele dia, talvez houvesse alijado mais de metade das provações amargas que a Terra me reserva... Se houvesse buscado compreender sua lição de amor e humildade, teria procurado André de Gioras, pessoalmente, reparando o mal que lhe havia feito, com a prisão do filho ignorante, demonstrando-lhe o meu interesse individual, sem confiar tão somente nos funcionários irresponsáveis que se encontravam a meu serviço... Guiado por esse interesse, teria encontrado Saul facilmente, pois Flamínio Severus seria, em Roma, o confidente dos meus desejos de reparação, evitando dessa maneira a dolorosa tragédia da minha vida paternal.

Se houvesse entendido bastante a sua caridade, na cura de minha filha, teria conhecido melhor o tesouro espiritual do coração de Lívia, vibrando com o seu espírito na mesma fé, ou caindo juntamente com ela na arena ignominiosa do circo, o que seria suave, em comparação com as lentas agonias do meu destino; teria sido menos vaidoso e mais humano, se lhe houvesse entendido a preceito a lição de fraternidade...

- Meu pai - exclamava, porém, a filha, de molde a confortar-lhe as agruras do coração -, se Jesus é a sabedoria e a verdade, de qualquer modo ele saberia compreender as razões da vossa atitude, sabendo que fostes forçado pelas circunstâncias a manter esse ou aquele princípio em vossa vida.

- Minha filha, nestes últimos anos - revidou Públio ponderadamente - tenho a presunção de haver chegado as mais seguras conclusões a respeito dos problemas da dor e do destino...

Acredito hoje, com a experiência própria que as atividades penosas do mundo me ofertaram, que nós contribuímos, sobretudo, para agravar ou atenuar os rigores da situação espiritual, nas tarefas desta vida.

Admitindo, agora, a existência de um Deus Todo-Poderoso, fonte de toda a misericórdia e todo o amor, creio que a Sua Lei é a do bem supremo para todas as criaturas. Esse código de solidariedade e de amor deve reger todos os seres e, dentro dos seus dispositivos divinos, a felicidade é o determinismo do céu para todas as almas. Toda vez que caímos ao longo do caminho, favorecendo o mal ou praticando-o, efetuamos uma intervenção indébita na Lei de Deus, com a nossa liberdade relativa, contraindo uma dívida com o peso dos infortúnios...

Não me referindo aos meus atos pessoais, que agravaram as minhas angustiosas dores íntimas, e considerando Jesus como medianeiro entre nós e Aquele a quem a sua profunda palavra chamava Pai-Nosso, fico hoje a pensar se não cometi um erro, forçando a sua misericórdia com a minha súplica paternal, a fim de que continuasses a viver neste mundo, para o nosso amor em família, quando eras pequenina!...

Flávia Lentúlia e Ana, que acompanhavam os raciocínios do senador, desde muitos anos, lhe seguiam as conclusões morais, cheias de surpresa, em face da facilidade íntima com que sabia aliar as lições penosas do seu destino aos princípios pregados pelo profeta Nazareno.

- Na verdade, meu pai - disse Flávia Lentúlia, depois de longa pausa - , tenho a impressão de que as forças divinas haviam deliberado arrebatar-me do mundo, considerando as dores penosas que me esperavam na estrada escabrosa do meu destino desventurado...

- Sim - ajuntou o senador, cortando-lhe a palavra -, ainda bem que me compreendeste. A vida e o sofrimento nos ensinam a entender melhor o plano das determinações de ordem divina.

Antigos iniciados das religiões misteriosas do Egito e da Índia acreditam que voltamos várias vezes à Terra, noutros corpos!...

Nesse instante, o velho patrício fez uma pausa.

Lembrou-se dos seus antigos sonhos, quando, em se vendo com a indumentária de Cônsul nos tempos de Catilina, infligia aos inimigos políticos o suplício da cegueira, a ferro incandescente, quando se chamava Públio Lentulus Sura.

Nos seus pensamentos caia como que uma torrente de ilações novas e sublimadas, como se fossem renovadoras inspirações da sabedoria divina.

Mas, depois de alguns instantes, como se o relógio da imaginação houvesse parado alguns minutos. para que o coração pudesse escutar o tropel das lembranças no deserto do seu mundo subjetivo, murmurava, confortado, na posse tardia do roteiro do seu amargurado destino:

- Hoje creio, minha filha, que, se as energias sábias do céu haviam decidido a tua morte, em pequenina - determinação essa que eu possivelmente contrariei com a minha súplica angustiosa de pai, descoberta em silêncio pelo Messias de Nazaré no recôndito do meu orgulhoso e infeliz coração - e que deverias ficar livre do cárcere que te prendia, de modo a te preparares melhor para a resignação, para a fortaleza e para os sofrimentos. Certamente, renascerias mais tarde e encontrarias as mesmas circunstâncias e os mesmos inimigos, mas terias um organismo mais forte para resistir aos embates penosos da existência terrestre.

Reconhecemos hoje, portanto, que há uma lei soberana e misericordiosa a que devemos obedecer, sem interferir no seu mecanismo feito de misericórdia e sabedoria...

Quanto a mim, que tive organismo resistente e fibra espiritual saturada de energia, sinto que, em outras vidas, procedi mal e cometi crimes nefandos.

Minha atual existência teria de ser um imenso rosário de infinitas amarguras, mas vejo tardiamente que, se houvesse ingressado no caminho do bem, teria resgatado um montão de pecados do pretérito obscuro e delituoso. Agora entendo a lição do Cristo como ensinamento imortal da humildade e do amor, da caridade e do perdão - caminhos seguros para todas as conquistas do espírito, longe dos círculos tenebrosos do sofrimento!

E lembrando o sonho que relatara a Flamínio, nos tempos idos, concluía:

- A expiação não seria necessária no mundo, para burilamento da alma, se compreendêssemos o bem, praticando-o por atos, palavras e pensamentos. Se é verdade que nasci condenado ao suplício da cegueira, em tão trágicas circunstâncias, talvez tivesse evitado a consumação desta prova, se abandonasse o meu orgulho para ser um homem humilde e bom.

Um gesto de generosidade de minha parte teria modificado as íntimas disposições de André de Gioras; mas, a realidade é que, não obstante todos os preciosos alvitres do Alto, continuei com o meu egoísmo, com a minha vaidade e com a minha criminosa impenitência.

Agravei, desse modo, meus débitos clamorosos perante a Justiça Divina, e não posso esperar magnanimidade dos juizes que me aguardam...

O velho Públio Lentulus tinha uma lágrima dolorosa no canto dos olhos apagados, mas Ana. que ansiosa lhe escutara as palavras e conceitos, e que se regozijava intimamente verificando que o orgulhoso senhor atingira as mais justas conclusões de ordem evangélica, ilações a que também ela havia chegado nas meditações da velhice, esclarecia, bondosamente, como se as suas afirmativas simples e incisivas chegassem no momento justo para consolação de todos:

- Senador - todas as vossas observações são criteriosas e justas.

Essa lei das vidas múltiplas, em favor do nosso aprendizado nas lutas penosas do mundo, eu a aceito plenamente, pois, nas suas divinas lições, Jesus asseverou que ninguém poderá penetrar o reino dos céus sem renascer de novo. Presumo, todavia, apesar da vossa cegueira material e dos vossos padecimentos, que sei compreender em toda a sua angustiosa intensidade, deveis trazer a alma plena de crença e de esperanças no futuro espiritual, porque também o Cristo nos afiançou que Nosso Pai não quer que se perca uma só de suas ovelhas!...

Públio Lentulus sentiu que uma força inexplicável lhe brotava no íntimo, como se fôra manancial desconhecido, de estranho conforto, preparando-o para enfrentar dignamente todos os amargores.

- Sim - murmurou de leve -, sempre Jesus!... Sempre Jesus!... Sem ele e sem os ensinos de suas palavras que nos enchem de coragem e de fé para alcançar um reino de paz no porvir da alma, não sei bem o que seria das criaturas humanas, agrilhoadas ao cárcere dos sofrimentos terrestres... Sete anos de padecimentos infinitos na soledade dos meus olhos mortos, figuram-se-me sete séculos de aprendizado cruel e doloroso! Somente assim, porém, poderia chegar a entender a lição do Crucificado!

O velho patrício, todavia, ao pronunciar a palavra "crucificado", reconduziu o pensamento a Jerusalém, na Páscoa do ano 33. Recordou que tivera em mãos o processo do Emissário Divino e, só então, ponderou a tremenda responsabilidade em que se vira envolvido naquele dia inolvidável e doloroso, exclamando depois de longa pausa:

- E pensar que, para um espírito como aquele, não houve sequer um gesto decisivo de defesa, da nossa parte, no angustioso momento da cruz infamante... . A mim, que agora vivo tão somente das minhas recordações amargas, parece-me vê-lo ainda à frente dos meus olhos, com os tristes estigmas da flagelação!...

Nele, concentrava-se todo o amor supremo do céu para redenção das misérias da Terra e, entretanto, não vi pessoa alguma trabalhar pela sua liberdade, ou agir efetivamente em seu favor!...

- Menos alguém... - exclamou Ana, inopinadamente. 

Quem chegou a ter esse gesto nobre? - perguntou o velho cego, admirado. - Não me constou que alguém o defendesse.

- É porque ignorastes, até hoje, que vossa digna consorte e minha inesquecível benfeitora, atendendo aos nossos rogos, se dirigiu imediatamente a Pôncio Pilatos, tão logo o triste cortejo havia saído da corte provincial romana, para interceder pelo Messias de Nazaré, injustamente condenado pela multidão enfurecida. Recebida pelo governador no seu gabinete particular, foi em vão que a nobre senhora implorou compaixão e piedade para o Divino Mestre.

- Então Lívia chegou a dirigir-se a Pilatos para suplicar por Jesus? - perguntou o senador, interessado e perplexo, recordando aquela tarde angustiosa da sua vida e rememorando as calúnias de Fúlvia, a respeito da esposa.

- Sim - respondeu a serva -, por Jesus, seu coração magnânimo desprezou todas as convenções e todos os preconceitos, não vacilando em atender às nossas súplicas, tudo fazendo por salvar o Messias da morte infamante!...

Públio Lentulus sentiu, então, grande dificuldade para externar seus pensamentos, com a garganta sufocada de emoção, dentro de suas amargas lembranças, e com os olhos mortos, marejados de lágrimas...

Ana, porém, recordou todos os pormenores daquele dia doloroso, relatando suas passadas emoções, enquanto o senador e a filha lhe escutavam a palavra, tomados de pranto no caminho da dor, da gratidão e da saudade.

E era desse modo que, ao fim de cada dia, sob o céu brilhante e perfumado de Pompeia, aquelas três almas se preparavam para as realidades consoladoras da morte, dentro da claridade terna e triste das lições amargas do destino, na esteira das recordações amigas.