sábado, 8 de outubro de 2016

Um Escravo - Primeira Parte II

Desde os primeiros tempos do Império, a mulher romana havia-se entregado à dissipação e ao luxo excessivo, em detrimento das obrigações santificadoras do lar e da família.

A facilidade na aquisição de escravos empregados nos serviços mais grosseiros, como nos mais elevados misteres de ordem doméstica, inclusive os da própria educação e instrução, havia determinado grande queda moral no equilíbrio das famílias patrícias, porquanto a disseminação dos artigos de luxo, vindos do Oriente, aliada à ociosidade, amolecera as fibras de energia e de trabalho das matronas romanas, encaminhando-as para as frivolidades da indumenta, para as intrigas amorosas, a preludiar a mais completa desorganização da família, no esquecimento de suas tradições mais apreciáveis.

Contudo, algumas casas haviam resistido heroicamente a essa invasão de forças perversoras e criminosas.

Mulheres havia, ao tempo, que se orgulhavam do padrão das antigas virtudes familiares, de quantas as tinham antecedido no labor construtivo das gerações de tantas almas sensíveis e nobres. 

As esposas de Públio e Flamínio eram desse número. Criaturas inteligentes e valorosas, ambas fugiam da onda corruptora da época, representando dois símbolos de bom-senso e simplicidade.

As últimas expressões do inverno já haviam desaparecido, no ano de 32, entornando pela terra, primaveril e alegre, uma taça imensa de flores e perfumes...

Num dia claro e ensolarado, vamos encontrar Lívia e Calpúrnia, na residência da primeira, em amável palestra, enquanto dois rapazinhos desenham, distraidamente, a um canto da sala.

As duas senhoras organizam aprestos de viagem, corrigindo defeitos de algumas peças de lã e trocando impressões íntimas, à meia voz, em tom amigo e discreto.

Em dado momento, os dois meninos alcançam um dos quartos contíguos, enquanto Lívia chama a atenção da amiga, nestes termos:

- Teus pequenos não têm hoje os exercícios habituais?

- Não, minha boa Lívia - respondeu Calpúrnia, com delicadeza fraternal, adivinhando-lhe as intenções -, não só Plínio, mas, também, Agripa, consagraram o dia de hoje à doentinha. Adivinho as suas vacilações e escrúpulos maternos, considerando a boa saúde dos nossos filhinhos; mas, os teus receios são infundados...

- Sabem os deuses, todavia, como tenho vivido nestes últimos tempos, desde que ouvi a opinião franca e sincera do médico de Tibur.

Bem sabes que para ele o caso de minha filha é mal doloroso e sem cura.

Desde então, toda a minha vida tem sido uma série de preocupações e martírios. Tomei todas as providências para que a pequena fosse isolada do círculo de nossas relações, atendendo aos imperativos da higiene e à necessidade de circunscrever, com o nosso próprio esforço, a moléstia terrível. 

- Mas, quem te diz que o mal é incurável? Acaso semelhante opinião provejo da palavra infalível dos deuses? Não sabes quanto é enganosa a ciência dos homens?

Há tempos, ambos os meus fílhinhos adoeceram com febre insidiosa e destruidora. Chamados os médicos, observei que eles se revezavam no mister de salvar os dois enfermos, sem resultados apreciáveis. Depois, refleti melhor na providência dos céus e, imediatamente, ofereci um sacrifício no templo de Castor e Pólux, salvando-os de morte certa. Graças a essa providência, hoje os vejo sorridentes e felizes.

Agora que não tens somente a pequena Flávia, mas também o pequenino Marcus, aconselho-te fazeres o mesmo, recorrendo aos deuses gêmeos.

- É verdade, minha boa Calpúrnia, assim farei antes de nossa partida próxima.

- E por falar na viagem, como te sentes em face desta mudança imprevista?

- Bem sabes que tudo farei pela tranqüilidade de Públio e pela nossa paz doméstica. Há muito noto Públio abatido e doente, em razão de suas lutas exaustivas ao serviço do Estado. Jovial e expansivo, de tempos a esta parte tornou-se taciturno e irritadiço. Enerva-se com tudo e por tudo, acreditando eu que a saúde precária de nossa filhinha contribua decisivamente para a sua misantropia e mau humor.

Considerando essas razões disponho-me, com satisfação, a acompanhá-lo à Palestina, pesando-me apenas no íntimo a circunstância de ser obrigada, ainda que temporariamente, a afastar-me da tua intimidade e dos teus conselhos.

- Folgo de assim te ouvir, porque a nós nos compete examinar a situação daqueles que o nosso coração elegeu para companheiros de toda a vida, tudo envidando por suavizar-lhes os aborrecimentos do mundo...

Públio é um bom coração, generoso e idealista, mas, como patrício descendente de família das mais ilustres da República, é vaidoso em demasia. Homens dessa natureza requerem grande senso psicológico da mulher, sendo justo e necessário que aparentes igualdade absoluta de sentimentos, de modo a poderes conduzi-lo sempre pelo melhor caminho.

Flamínio deu-me a conhecer todas as circunstâncias da tua permanência na Judeia, mas, alguns pormenores existem que eu ainda desconheço. Ficarás, de fato, em Jerusalém?

- Sim. Públio deseja que nos fixemos na mesma residência do seu tio Sálvio, em Jerusalém, até que possamos eleger o melhor clima do país, de maneira a beneficiar a saúde de nossa filhinha.

- Está bem - exclamou Calpúrnia, assumindo ares da maior discrição -, em face da tua inexperiência, sou obrigada a esclarecer o teu espírito, considerando a possibilidade de quaisquer complicações futuras.

Lívia surpreendeu-se com a observação da amiga, mas, toda ouvidos, revidou impressionada:

- Mas, que queres dizer?

- Sei que não tens um conhecimento mais acurado dos parentes de teu marido, que há tanto tempo se conservam ausentes de Roma - murmurou Calpúrnia, com as minudências características do espírito feminino - e constituí um dever de amizade aclarar o teu espírito, a fim de não te conduzires com demasiada confiança por onde passares.

O pretor Sálvio Lentulus, que há muitos anos foi destituído do governo das províncias, e agora tem simples atribuições de funcionário junto do atual Procurador da Judeia, não é bem um homem idêntico a teu marido, que, se tem certos defeitos de família, é um espírito muito franco e sincero. Eras muito jovem quando se verificaram acontecimentos deploráveis em nosso ambiente social, com referência às criaturas com quem agora vais conviver. 

A esposa de Sálvio, que ainda deve ser uma mulher moça e bem cuidada, é irmã de Cláudia, mulher de Pilatos, a quem teu marido vai recomendado, em caminho da alta administração da província.

Em Jerusalém vais encontrar toda essa gente, de costumes bem diferentes dos nossos, e precisas pensar que vais conviver com criaturas dissimuladas e perigosas.

Não temos o direito de reprovar os atos de ninguém, a não ser em presença daqueles que consideramos culpados ou passíveis de recriminações, mas devo prevenir-te de que o Imperador foi compelido a designar essa gente para serviços no exterior, considerando graves assuntos de família, na intimidade da Corte.

Que os deuses me perdoem as observações da ausência, mas é que, na tua condição de romana e mulher de senador ainda jovem, serás homenageada pelos nossos conterrâneos distantes, homenagens que receberás em sociedade como ramalhetes de rosas cheios de perfume, mas também cheios de espinhos...

Lívia ouviu a amiga, entre espantada e pensativa, exclamando em voz discreta, como quem quisesse desfazer uma dúvida:

- Mas, o pretor Sálvio não é homem idoso?

- Estás enganada. É pouco mais moço que Flamínio, mas os seus apuros de cavalheiro fazem da sua personalidade um tipo de soberba aparência.

- Como poderei levar a bom termo os meus deveres, no caso de me cercarem as perfídias sociais, tão comuns em nosso tempo, sem agravar o estado espiritual de meu esposo?

- Confiemos na providência dos deuses - murmurou Calpúrnia, deixando transparecer a fé magnífica do seu coração maternal.

Mas, as duas não conseguiram prosseguir na conversação. Um ruído mais forte denunciava a aproximação de Públio e Flamínio, que atravessavam o vestíbulo, procurando-as. 

- Então? - exclamou Flamínio, bem humorado, assomando à porta, com malicioso sorriso. - Entre a costura e a palestra, deve sofrer a reputação de alguém nesta sala, porque já dizia meu pai que mulher sozinha pensa sempre na família; mas, se está com outra, pensa logo nos... outros.

Um riso sadio e geral coroou as suas palavras alegres, enquanto Públio exclamava contente:

- Estejamos sossegados, minha Lívia, porque tudo está pronto e a nosso inteiro contento. O Imperador prontificou-se a auxiliar-nos generosamente com as suas ordens diretas, e, daqui a três dias, uma galera nos esperará nas cercanias de Óstia, de modo a viajarmos tranqüilamente. Lívia sorriu satisfeita e confortada, enquanto do apartamento da pequena Flávia assomavam duas cabeças risonhas, preparando-se Flamínio para receber nos braços, de uma só vez, os dois filhinhos.

- Venham cá, ilustres marotos! Porque fugiram ontem das aulas?

Hoje recebi queixa do ginásio, nesse sentido, e estou muito contrariado com esse procedimento... Plínio e Agripa ouviram a reprimenda paterna. desapontados, respondendo o mais velho, com humildade:

- Mas, papai, eu não sou culpado. Como o senhor sabe, o Plínio fugiu dos exercícios, obrigando-me a sair para procurá-lo. 

- Isso é uma vergonha para você, Agripa - exclamou Flamínio, paternalmente -, sua idade não permite mais a participação nas traquinadas de seu irmão.

Ia a cena nessa altura, quando Calpúrnia interveio apaziguando:

- Tudo está muito certo, mas teremos de resolver o assunto em casa, porque a hora não comporta discussões entre pai e filhos.

Ambos os meninos foram beijar a mão materna, como se lhe agradecessem a intervenção carinhosa, e, daí a minutos, despediam-se as duas famílias, com a promessa de Flamínio, no sentido de acompanhar os amigos até Óstia, nas proximidades da foz do Tibre, no dia do embarque.

Decorridas aquelas setenta e duas horas de azáfama e preparativos, vamos encontrar nossas personagens numa galera confortável e elegante, nas águas de Óstia, onde ainda não existiam as construções do porto, ali edificadas mais tarde por Cláudio.

Plínio e Agripa ajudavam a acomodar a pequena enferma no interior, instigados pelos pais, que os preparavam desde cedo para as delicadezas da vida social, enquanto Calpúrnia e Lívia instruíam uma serva, a respeito da instalação do pequenino Marcus. Públio e Flamínio trocavam impressões, a distância, ouvindo-se a recomendação do segundo, que elucidava o amigo confidencialmente:

- Sabes que os súditos conquistados pelo Império muitas vezes nos olham com inveja e despeito, tornando-se preciso nunca desmerecermos da nossa posição de patrícios.

Algumas regiões da Palestina, segundo os meus próprios conhecimentos, estão infestadas de malfeitores e é necessário estejas precavido contra eles, principalmente na tua marcha em demanda de Jerusalém. Leva contigo, tão logo aportes com a família, o maior número de escravos para a tua garantia e dos teus, e, na hipótese de ataques, não hesites em castigar com severidade e aspereza.

Públio recebeu a exortação, atenciosamente, e, daí a minutos, movimentavam-se ambos no interior da nave, onde o viajante interpelava o chefe dos serviços:

- Então, Áulus, tudo está pronto?

- Sim, Ilustríssimo. Apenas aguardamos as vossas ordens para a partida. Quanto aos nossos trabalhos, podeis ficar tranqüilo, porque escolhi a dedo os melhores cartagineses para o serviço de remos. 

Com efeito, começaram ali as últimas despedidas. As duas senhoras abraçavam-se com lágrimas enternecidas e afetuosas, enquanto se expressavam promessas de perene lembrança e votos aos deuses pela tranqüilidade geral.

Derradeiros abraços comovidos e largava a galera suntuosa, onde a bandeira da águia romana tremulava orgulhosa, ao sopro suave das virações marinhas. Os ventos e os deuses eram favoráveis, porque, em breve, ao esforço hercúleo dos escravos no ritmo dos remos poderosos, os viajantes contemplavam de longe a fita esverdeada da costa italiana, como se avançassem na massa liquida para as vastidões insondáveis do Infinito.

Transcorria a viagem com o máximo de serenidade e calma.

Públio Lentulus, não obstante a beleza da paisagem na travessia do Mediterrâneo e a novidade dos aspectos exteriores, considerada a monotonia dos seus afazeres na vida romana, junto dos numerosos processos do Estado, tinha o coração cheio de sombras. Debalde a esposa procurara aproximar-se do seu espírito irritado, buscando tanger assuntos delicados de família, com o fim de conhecer e suavizar-lhe os íntimos dissabores. Experimentava ele a impressão de que caminhava para emoções decisivas do desenrolar de sua existência. Conhecera parte da Ásia, porque, na primeira mocidade, havia servido um ano na administração de Esmirna, de modo a integrar-se, da melhor maneira, no mecanismo dos trabalhos do Estado, mas não conhecia Jerusalém, onde o esperavam como legado do Imperador, para a solução de vários problemas administrativos de que fôra incumbido junto ao governo da Palestina.

Como encontraria o tio Sálvio, mais moço que seu pai? Há muitos anos não o via pessoalmente; entretanto, era pouco mais velho do que ele próprio. E aquela Fúlvia, leviana e caprichosa, que lhe desposara o tio no torvelinho dos seus numerosos escândalos sociais, tornando-se quase indesejável no seio da família?

Recordava mais íntimos pormenores do passado, abstendo-se, todavia, de comunicar à mulher as mais penosas expectativas. Refletindo, igualmente, na situação da esposa e dos dois filhinhos, encarava com ansiedade os primeiros obstáculos à sua permanência na Judeia, na qualidade de patrícios, mas também como estrangeiros, considerando que as amizades que os aguardavam eram problemáticas.

Entre as suas cismas e as preces da esposa, estava a terminar a travessia do Mediterrâneo, quando chamou a atenção do seu servo de confiança, nestes termos:

- Comênio, dentro em pouco estaremos às portas de Jerusalém; mas, antes que isso se verifique, temos de realizar pequena marcha, depois do ponto de desembarque, reclamando-se muito cuidado de minha parte, com relação ao transporte da família. Esperam-se alguns representantes da administração da Judeia, mas certamente estaremos acompanhados dos teus cuidados, pois vamos aportar a região para mim desconhecida e estrangeira. Reúne todos os servos sob as tuas ordens, de modo a garantirmos absoluta segurança pelo caminho.

- Senhor, contai com o nosso desvelo e dedicação - respondeu o servidor, entre respeitoso e comovido.

No dia imediato Públio Lentulus e comitiva desembarcavam em pequeno porto da Palestina, sem incidentes dignos de menção.

Esperavam-no, além do legado do Procurador, alguns lictores e numerosos soldados pretorianos, comandados por Sulpício Tarquinius, munido de todos os aprestos e elementos exigidos para uma viagem tranqüila e confortável, pelas estradas de Jerusalém.

Após o necessário repouso, a caravana pôs-se a caminho, parecendo antes expedição militar que transporte de simples família, através das estações periódicas de descanso.

As armaduras dos cavalos, os capacetes romanos reluzindo ao Sol, os trajes extravagantes, palanquins enfeitados, animais de tração e os carros pesados da bagagem davam idéia de expedição triunfal, embora azafamada e silenciosa.

Ia a caravana a bom termo, quando, nas proximidades de Jerusalém, ocorre um imprevisto. Um corpo sibilante cortou o ar fino e claro, alojando se no palanquim do senador, ouvindo-se ao mesmo tempo um grito estridente e lamentoso. Minúscula pedra ferira levemente o rosto de Lívia, determinando grande alarme na massa enorme de servos e cavaleiros.

Entre os carros e os animais que pararam assustados, numerosos escravos rodeiam os senhores, buscando, com precipitação, inteirar-se do fato. Sulpício Tarquinius, num golpe de vista, dá largas ao galope da montada, buscando prender um jovem que se afastava, receoso, das margens do caminho. E, culpado ou não, foi um rapaz dos seus dezoito anos apresentado aos viajantes, para a punição necessária.

Públio Lentulus recordou a recomendação de Flamínio, momentos antes da partida, e, sopitando os seus melhores sentimentos de tolerância e generosidade, resolveu prestigiar a sua posição e autoridade aos olhos de quantos houvessem de lhe seguir a permanência naquele país estrangeiro.

Ordenou providências imediatas aos lictores que o acompanhavam, e ali mesmo, ante as claridades mordentes do Sol a pino e sob o olhar espantado de algumas dezenas de escravos e centuriões numerosos, determinou que vergastassem sem comiseração o rapaz, pela sua leviandade.

A cena era desagradável e dolorosa. Todos os servos acompanhavam, compungidos, o estalar do chicote no dorso seminu daquele homem ainda moço, que gemia, em soluços dolorosos, sob o látego despótico e cruel. Ninguém ousou contrariar as ordens impiedosas, até que Lívia, não conseguindo contemplar por mais tempo a rudeza do espetáculo, pediu ao esposo, em voz súplice:

- Basta, Públio, porque os direitos da nossa condição não traduzem deveres de impiedade...

O senador considerou, então, a sua severidade excessiva e rigorosa, ordenou a suspensão do castigo doloroso, mas, a uma pergunta de Sulpício, quanto ao novo destino do infeliz, falou em tom rude e irritado:

- Para as galeras!...

Os presentes estremeceram, porque as galeras significavam a morte ou a escravidão para sempre.

O desventurado amparava-se, exânime, nas mãos dos centuriões que o rodeavam, porém, ao ouvir as três palavras da sentença condenatória, deitou ao seu orgulhoso juiz um olhar de ódio supremo e de supremo desprezo No âmago de sua alma coriscavam relâmpagos de vingança e de cólera, mas a caravana pôs-se novamente a caminho, entre o ruído dos carros pesados e o tilintar das armaduras, ao movimento dos cavalos fogosos e irrequietos.

A chegada a Jerusalém ocorreu sem outros fatos dignos de nota. A novidade dos aspectos e a diversidade das criaturas é que impressionaram os viajantes no seu primeiro contacto com a cidade, cuja fisionomia, com raras mudanças, no decurso de todos os séculos, foi sempre a mesma, triste e desolada, preludiando as paisagens ressequidas do deserto.

Pilatos e sua mulher encontravam-se nas solenidades de recepção ao senador, que ia, como legado de Tibério, junto da administração da província, encarnando o princípio da lei e da autoridade.

Sálvio Lentulus e a esposa, Fúlvia Prócula, receberam os parentes com aparato e prodigalidade. Homenagens numerosas foram prestadas a Públio Lentulus e sua mulher, salientando-se que Lívia, fosse em razão das advertências de Calpúrnia, ou em vista de sua acuidade psicológica, reconheceu logo que naquele ambiente não palpitavam os corações generosos e sinceros dos seus amigos de Roma, experimentando, no íntimo, dolorosa sensação de amargura e ansiedade. Verificara, com satisfação, que a sua  pequena Flávia havia melhorado, não obstante a viagem exaustiva, mas, ao mesmo tempo, torturava-se percebendo que Fúlvia não possuía amplitude de coração para acolhê-los sempre com carinho e bondade. Notara que, ao lhe apresentar a filhinha enferma, a patrícia vaidosa fizera um movimento instintivo de recuo, afastando sua pequena Aurélia, filha única do casal, do contacto com a família, apresentando pretextos inaceitáveis. Bastou um dia de permanência naquele lar estranho, para que a pobre senhora compreendesse a extensão das angústias que a esperavam ali, calculando os sacrifícios que a situação exigiria do seu coração sensível e carinhoso.

E não era somente o quadro familiar, nos seus detalhes impressionantes, que lhe torturava a mente trabalhada de expectativas pungentes. Deparando-se-lhe Pôncio Pilatos, no próprio momento de sua chegada, sentira, no íntimo, que havia encontrado um rude e poderoso inimigo.

Forças ignoradas do mundo intuitivo falavam ao seu coração de mulher, como se vozes do plano invisível lhe preparassem o espírito para as provas aspérrimas dos dias vindouros. Sim, porque a mulher, símbolo do santuário do lar e da família, na sua espiritualidade, pode, muitas vezes, numa simples reflexão, devassar mistérios insondáveis dos caracteres e das almas, na tela espessa e sombria das reencarnações sucessivas e dolorosas.

Públio Lentulus, ao contrário, não experimentou as mesmas emoções da companheira. A diversidade do ambiente modificara-lhe um tanto as disposições íntimas, sentindo-se moralmente confortado em face da tarefa que lhe competia desempenhar no cenário novo de suas atividades de homem de Estado. 

No segundo dia de permanência na cidade, tão logo regressara da primeira visita às instalações da Torre Antônia, onde se aquartelavam contingentes das forças romanas, observando o movimento dos casuístas e dos doutores, no Templo famoso de Jerusalém, foi procurado por um homem humilde e relativamente moço, que apresentava como credencial, tão somente, o coração aflito e carinhoso de pai.

Obedecendo mais aos imperativos de ordem política que ao sentimento de generosidade do coração, o senador quebrou as etiquetas do momento, recebendo-o no seu gabinete privado, disposto a ouvi-lo.

Um judeu, pouco mais velho que ele próprio, em atitude de respeitosa humildade e expressando-se dificilmente, de modo a fazer-se compreendido, falou-lhe nestes termos:

- Ilustríssimo senador, sou André, filho de Gioras, operário modesto e paupérrimo, não obstante numerosos membros de minha família terem atribuições importantes no Templo e no exercício da Lei. Ouso vir até vós, reclamando o meu filho Saul, preso, há três dias, por vossa ordem e remetido diretamente para o cativeiro Perpétuo das galeras... Peço-vos clemência e caridade na reparação dessa sentença de terríveis efeitos para a estabilidade da minha casa pobre... Saul é o meu primogênito e nele deponho toda a minha esperança paternal... Reconhecendo-lhe a inexperiência da vida, não venho inocentá-lo da culpa, mas apelar para a vossa clemência e magnanimidade, em face da sua ignorância de rapaz, jurando-vos, pela Lei, encaminhá-lo doravante pela estrada do dever austeramente cumprido...

Públio recordou a necessidade de fazer sentir a autoridade da sua posição, revidando com o orgulho característico das suas resoluções:

- Como ousa discutir minhas determinações, quando guardo a consciência de haver praticado a justiça? Não posso modificar minhas deliberações, estranhando que um judeu ponha em dúvida a ordem e a palavra de um senador do Império, formulando reclamações desta natureza.

- Mas, senhor, eu sou pai...

- Se o és, porque fizeste de teu filho um vagabundo e um inútil?

- Não posso compreender os motivos que levaram meu pobre Saul a comprometer-se dessa maneira, mas, juro-vos que ele é o braço-forte dos meus trabalhos de cada dia.

- Não me cabe examinar as razões do teu sentimento, porque a minha palavra esta dada irrevogavelmente.

André de Gioras mirou Públio Lentulus de alto a baixo, ferido na sua emotividade de pai e no seu sentimento de homem, esfuziando de dor e de cólera reprimida. Seus olhos úmidos traíam íntima angústia, em face daquela recusa formal e inapelável, mas, desprezando todos os convencionalismos humanos, falou com orgulhosa firmeza:

- Senador, eu desci da minha dignidade para implorar vossa compaixão, mas aceito a vossa recusa ignominiosa!...

Acabais de comprar, com a dureza do coração, um inimigo eterno e implacável!... Com os vossos poderes e prerrogativas, podeis eliminar-me para sempre, seja reduzindo-me ao cativeiro ou condenando-me a perecer de morte infame; mas eu prefiro afrontar a vossa soberbia orgulhosa!...

Plantastes, agora, uma árvore de espinhos, cujo fruto, um dia, amargará sem remédio o vosso coração duro e insensível, porque a minha vingança pode tardar, mas, como a vossa alma inflexível e fria, ela será também indefectível e tenebrosa!...

O judeu não esperou a resposta do seu interlocutor, amargamente emocionado com a veemência daquelas palavras, saindo do recinto a passo firme e de rosto erguido, como se houvesse obtido os melhores resultados da sua curta e decisiva entrevista.

Num misto de orgulho e ansiedade, Públio Lentulus experimentou, naquele instante, as mais variadas gamas de sentimento a dominar-lhe o coração Desejou determinar a prisão imediata daquele homem que lhe atirara em rosto as mais duras verdades, experimentando, simultaneamente, o desejo de chamá-lo a si, prometendo-lhe o regresso do filho querido, a quem protegeria com o seu prestígio de homem de Estado; mas a voz se lhe sumiu na garganta, naquele complexo de emoções que de novo lhe roubara a paz e a serenidade. Dolorosa opressão paralisou-lhe as cordas vocais, enquanto no coração angustiado repercutiam as palavras candentes e amarguradas.

Uma série de reflexões penosas enfileirou-se no seu mundo íntimo, assinalando os mais fortes conflitos de sentimentos. Também ele não era pai e não procurava reter os filhinhos perto do coração? Aquele homem possuía as mais fortes razões para considerá-lo um espírito injusto e perverso.

Recordou o sonho inexplicável que, relatado a Flamínio, fôra a causa indireta da sua vinda para a Judeia e considerou as lágrimas de compunção que derramara, em contacto com o turbilhão de lembranças perniciosas da sua existência passada, em face de tantos crimes e desvios.

Retirou-se do gabinete com a solução mental da questão em foco, ordenando que trouxessem o jovem Saul à sua presença, com a urgência que o caso requeria, a fim de recambiá-lo à casa paterna, e modificando, dessa forma, as penosas impressões que havia causado ao pobre André.

Suas ordens foram expedidas sem delongas; todavia, esperava-o desagradável surpresa, com as informações dos funcionários a quem competia a providência de semelhantes serviços.

O jovem Saul desaparecera do cárcere, fazendo crer numa fuga desesperada e imprevista. Os informes foram transmitidos à autoridade superior, sem que Públio Lentulus viesse a saber que os maus servidores do Estado negociavam, muitas vezes, os prisioneiros jovens com os ambiciosos mercadores de escravos, que operavam nos centros mais populosos da capital do mundo.

Informado de que o prisioneiro se evadira, o senador sentiu a consciência aliviada das acusações que lhe pesavam no intimo. Afinal, pensou, tratava-se de caso de somenos importância, porquanto o rapaz, distante do cárcere, procuraria imediatamente a casa paterna; e, consolidando sua tranqüilidade, expediu ordens aos dirigentes do serviço de segurança, recomendando se abstivessem de qualquer perseguição ao foragido, a quem se levaria, oportunamente, o indulto da lei.

O caminho de Saul, todavia, fôra bem outro.

Em quase todas as províncias romanas funcionavam terríveis agrupamentos de malfeitores, que, vivendo à sombra da máquina do Estado, haviam-se transformado em mercadores de consciências. O moço judeu, na sua juventude promissora e sadia, fora vítima dessas criaturas desalmadas. Vendido clandestinamente a poderosos escravocratas de Roma, em companhia de muitos outros, foi embarcado no antigo porto de Jope, com destino à Capital do Império.

Antecipando-nos na cronologia de nossas narrativas, vamos encontrá-lo, daí a meses, num grande tablado, perto do Fórum, onde se alinhavam, em penosa promiscuidade, homens, mulheres e crianças, quase todos em míseras condições de nudez, tendo cada qual um pequeno cartaz pendurado ao pescoço. Olhos chispando sentimentos de vingança, lá se encontrava Saul, seminu, um barrete de lã branca a cobrir-lhe a cabeça e com os pés descalços levemente untado de gesso.

Junto daquela massa de criaturas desventuradas, passeava um homem de ar ignóbil e repulsivo, que exclamava em voz gritante para a multidão de curiosos que o rodeava: 

- Cidadãos, tende a bondade de apreciar... Como sabeis, não tenho pressa em dispor da mercadoria, porque não devo a ninguém, mas aqui estou para servir aos ilustres romanos!...

E, detendo-se no exame desse ou daquele infeliz, prosseguia na sua arenga grosseira e insultuosa:

- Vede este mancebo!... É um exemplar soberbo de saúde, frugalidade e docilidade. Obedece ao primeiro sinal. Atentai bem para o aprumo da sua carne firme. Doença alguma terá força sobre o seu organismo.

Examinai este homem! Sabe falar o grego corretamente e é bem feito da cabeça aos pés!...

Nesses pruridos de negocista, continuou a propaganda individual, em face da multidão de compradores que o assediava, até que tocou a vez do jovem Saul, que deixava transparecer, no aspecto miserável, os seus ímpetos de cólera e sentimentos tigrinos:

- Atentai bem neste mancebo! Acaba de chegar da Judeia, como o mais belo exemplar de sobriedade e saúde, de obediência e de força. É uma das mais ricas amostras deste meu lote de hoje. Reparai na sua mocidade, ilustres romanos!... Dar-vo-lo-ei ao preço reduzido de cinco mil sestércios!...

O jovem escravo contemplou o mercador com a alma esfervilhante de ódio e alimentando, intimamente, as mais ferozes promessas de vingança. Seu semblante judeu impressionou a multidão que estacionava na praça, aquela manhã, porque um intenso movimento de curiosidade lhe cercou a figura interessante e originalíssima. Um homem destacou-se da multidão, procurando o mercador, a quem se dirigiu à meia voz, nestes termos:

- Flacus, meu senhor necessita de um rapaz elegante e forte para as bigas dos filhos. Esse jovem me interessa. Não o darias ao preço de quatro mil sestércios?

- Vá lá - murmurou o outro em tom de negócio -, meu interesse é bem servir à ilustre clientela.

O comprador era Valério Brutus, capataz dos serviços comuns da casa de Flamínio Severus, que o incumbira de adquirir um escravo novo e de boa aparência, destinado ao serviço das bigas dos filhos, nos grandes dias das festas romanas.

Foi assim que, imbuído de sentimentos ignóbeis e deploráveis, Saul, o filho de André, foi introduzido, pelas forças do destino, junto de Plínio e de Agripa, na residência da família Severus, no coração de Roma, ao preço miserável de quatro mil sestércios.

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