domingo, 16 de outubro de 2016

Planos da Treva - Segunda Parte III

Há dois mil anos
Romance de Emmanuel


Depois das solenidades do casamento de Plínio, contrariamente ao que se podia esperar, o liberto judeu não regressou a Massília, pretextando numerosos negócios que o retinham na Capital do Império.
Instalado no palacete dos Severus, para onde se haviam transferido os jovens nubentes, junto de Calpúrnia, Saul teve oportunidades numerosas de se avistar com o senador Públio Lentulus, mantendo ambos várias palestras sobre a Judeia e as suas regiões importantes.
Intrigado com aquele olhar ardente e aqueles traços fisionômicos, que lhe não eram totalmente estranhos, e lembrando-se perfeitamente daquele pai que o procurara ansioso e aflito, em Jerusalém, acompanhemos o senador em uma de suas palestras íntimas com o interessante desconhecido, na qual o abordou com esta pergunta inesperada:
- Senhor Saul, já que sois filho das cercanias de Jerusalém, vosso pai, porventura, não se chamaria André de Gioras? 
O liberto mordeu os lábios, diante daquele ataque direto ao assunto mais delicado da sua existência, respondendo dissimuladamente:

Não, senador. Meu pai não tem esse nome. Ao tempo em que fui escravizado por mãos impiedosas e cruéis, porquanto eu não era senão uma criança mal-educada e irresponsável - acentuou com profunda ironia -, meu pai era um agricultor miserável que não possuía outra coisa além dos seus braços para o trabalho de cada dia... Tive, contudo, a felicidade de encontrar as mãos generosas de Flamínio Severus, que me guiaram para a liberdade e para a fortuna e, hoje, o meu genitor, com o pouco que lhe forneci, aumentou as suas possibilidades de trabalho, desfrutando não somente certa importância social em Jerusalém, como também funções superiores no Templo.
Mas, porque mo perguntais?
O senador franziu o sobrolho, em face de tanta desenvoltura na resposta, mas, sentindo-se aliviado, por lhe parecer que não se tratava, de fato, do Saul de suas penosas lembranças, respondeu com mais desafogo de consciência:
- É que eu conheci, ligeiramente, um agricultor israelita, por nome André de Gioras, cujos traços fisionômicos não eram muito diversos dos vossos...
E a conversação seguia o ritmo normal das conversações sem importância nos ambientes de convencionalismo da vida social.
Saul, entretanto, deixava transparecer fulgor estranho no olhar, como quem se encontrava extremamente satisfeito com o destino, à espera de um ensejo para executar seus tenebrosos planos de vingança.
Um móvel oculto e inconfessável o retinha em Roma, quando numerosas operações comerciais requeriam sua presença em Massília, onde seu nome se radicara a grandes interesses de ordem financeira e material. Esse móvel era o intenso desejo de se fazer notado pela jovem esposa de Plínio, cujo olhar parecia atrai-lo para um abismo de amor violento e irreprimível.
Desde o instante em que a vira com os adornos do noivado, no dia venturoso de seu enlace, parecia haver lobrigado a criatura ideal dos seus sonhos mais íntimos e remotos.
Na realidade, os filhos de seus antigos senhores mereciam o seu respeito e o maior acatamento; todavia, uma força maior que todos os seus sentimentos de gratidão o levava a desejar a posse de Flávia Lentúlia, a qualquer preço, ainda que fosse o da própria vida.
Aqueles olhos formosos e cismadores, a graça amorosa e espontânea, a inteligência lúcida e delicada, todos os seus predicados físicos e espirituais, que observara agudamente, nos poucos dias de permanência na cidade, o autorizavam a crer que aquela mulher era bem o tipo das suas idealizações.
E foi engolfado nesse turbilhão de pensamentos sombrios que dois meses se passaram, de expectativas inconfessáveis e angustiosas, sem que perdesse a mais ligeira oportunidade para demonstrar a Flávia o grau do seu afeto, da sua admiração e estima, sob as vistas amigas e confiantes de Plínio.
Na soledade de suas preocupações íntimas, considerava Saul que, se ela o amasse, se correspondesse à afeição violenta do seu espírito impetuoso e egoísta, jamais se lembraria de exercer a planejada vingança sobre o coração de seu pai, indo buscar o jovem Marcus Lentulus para o lar paterno e liquidando o pretérito de visões tenebrosas; contudo, se acontecesse o contrário, executaria os seus diabólicos projetos, deixando se embriagar pelo vinho odiento da morte.
Nessa época, corria já o ano de 47, e sem nos esquecermos de Fúlvia e sua filha, vamos encontrá-las, de novo, sob o domínio dos mesmos sentimentos cruéis e tenebrosos. 
Em vão desposara Aurélia a Emiliano Lúcios, que, para ela, não representava de modo algum o tipo do homem que o seu temperamento supunha haver encontrado no filho mais moço de Flamínio.
E foi assim que, depois dos primeiros desencantos e atritos no ambiente doméstico, a conselho da mãe e na sua própria companhia, procurou recorrer às ciências estranhas de Araxes, célebre feiticeiro egípcio, que tinha uma loja de mercadorias exóticas nas proximidades do Esquilino.
Araxes, cujo comércio criminoso todos conheciam como fonte inesgotável de filtros milagrosos do amor, da enfermidade e da morte, era um iniciado do antigo Egito, desviado, porém, da missão sacrossanta da caridade e da paz, na sua violenta paixão pelo dinheiro da numerosa clientela romana, então em pletora de vícios clamorosos e na dissolução dos mais belos costumes do sagrado instituto da família.
Explorando-lhe as paixões inferiores e os hábitos viciosos, o mago egípcio empregava quase toda a sua ciência espiritual na execução de todos os malefícios e crimes, motivando enormes danos com as suas drogas venenosas e seus estranhos conselhos.
Procurado, discretamente, por Fúlvia e a filha, inteirou-se dos fins da visita e ali mesmo, entre grandes retortas e pacotes de plantas e substâncias diversas. mergulhou a cabeça nas mãos, como se o seu espírito estivesse devassando os menores segredos do mundo invisível, ante uma trípode e outros petrechos de ciências ocultas, com que ele, psicólogo profundo, buscava impressionar a mente sugestionável dos consulentes numerosos que lhe solicitavam a solução dos problemas da vida.
Ao cabo de longos minutos de concentração, com os olhos a brilhar estranhamente, o mago egípcio dirigiu-se a Aurélia, afirmando-lhe em palavras impressionantes:
- Senhora, vejo à minha frente dolorosos quadros da sua vida espiritual, no passado longínquo!... Vejo Delfos, nos dias gloriosos do seu oráculo e contemplo a sua personalidade buscando seduzir um homem que lhe não pertencia... Esse homem é o mesmo da atualidade... As mesmas almas perambulam agora em outros corpos e a senhora deve pensar na realidade dos dias que se passam, conformando-se com a nítida separação das linhas do destino!...
Aurélia ouvia, entre surpresa e assombrada, enquanto a alma arguta de sua mãe acompanhava a palestra, tocada de impressão indefinível.
- Que me dizeis? - replicou a jovem senhora, no auge da sua sensibilidade ferida. - Outras vidas? Um homem que não me pertencia?...
Que vem a ser tudo isso?
- Sim, nosso espírito, neste mundo - redargüiu o feiticeiro, com imperturbável serenidade -, tem longa série de existências, que enriquecem o nosso íntimo com o máximo de conhecimento sobre os deveres que nos competem na vida!
A senhora já viveu em Atenas e em Delfos, numa grande fase de profundas irreflexões em matéria de amor, e, sentindo-se hoje próxima do objeto de suas ardentes e pecaminosas paixões de outrora, julga-se com as mesmas possibilidades de satisfazer seus desejos violentos e indignos!...
Por aqui, hão passado inúmeras criaturas. A muitas aconselhei perseverança nos propósitos, por vezes injustificáveis e inferiores; mas, para o seu caso, há uma voz que fala mais alto à minha consciência. Se a sua irreflexão for ao ponto de provocar esse homem, em consciência honesto até agora, é possível que o seu coração também inquieto venha a corresponder aos seus caprichos; contudo, busque não se entregar ao desvario dessa provocação, porque o destino o reuniu, agora, à alma gêmea da sua e um caminho áspero de provações amargas os espera no futuro, para a consolidação da sua confiança mútua, da sua afeição e da sua grandeza espiritual!... Não se interponha no caminho dessa mulher considerada pelo seu espírito como poderosa rival!... Interpor-se entre ela e o esposo seria agravar a senhora as suas próprias penas, porque a verdade é que o seu coração não se encontra preparado para as grandes renúncias santificantes, e aquilo que supõe ser profundo e sublimado amor, nada mais é que capricho prejudicial do seu coração de mulher voluntariosa e pouco disposta a sacrificar-se pelo carinho de companheiro amoroso e leal, mas, sim, a multiplicar os amantes pelo número de suas vontades artificiais...
Aurélia estava lívida, ouvindo essas palavras, que considerava atrevidas e injuriosas.
Desejava defender-se, mas uma força poderosa parecia comprimir-lhe a garganta, anulando-lhe o esforço das cordas vocais.
Fúlvia, porém, tomada de rancor pelas expressões insultuosas daquele homem, tomou a defesa da filha, argüindo-o com energia:
- Araxes, feiticeiro impudico, que queres dizer com estas palavras?
Insultas-nos? Poderemos fazer cair sobre tua cabeça o peso da justiça do Império, conduzindo-te ao cárcere e revelando à sociedade os teus sinistros segredos!.
- E porventura não os tereis também, nobre senhora? - revidou ele imperturbavelmente -; estaríeis, assim, tão sem culpa, para não vacilar em condenar-me?
Fúlvia mordeu os lábios, tremendo de ódio e exclamando com fúria: - Cala-te, infame! Não sabes que tens diante dos olhos a esposa de um pretor?
- Não me parece - murmurou o feiticeiro, com serena ironia -, pois as nobres matronas dessa estirpe não viriam a esta casa solicitar minha cooperação para um crime... E, ao demais, que diriam em Roma de uma patrícia, que descesse ao extremo de procurar, na intimidade, um velho feiticeiro do Esquilino?
É verdade que muitos males tenho praticado na minha vida, mas, sabem-no todos que assim procedo e não busco a sombra das boas situações sociais para acobertar a hediondez da minha miserável existência!... Ainda assim, quero salvar a mocidade de tua filha do lôbrego caminho de tuas perversidades, porque na hipótese de seguir-te ela os coleios de víbora, na senda de esposa criminosa e infiel, seu único fim será a prostituição e o infortúnio, rematados com a morte ignominiosa na ponta de uma espada...
Fúlvia desejou revidar energicamente aos insultos de Araxes, repelindo aquelas expressões injuriosas, recebidas como atrevimento supremo, mas Aurélia, receosa de novas complicações e compreendendo a culpabilidade de sua mãe, tomou-lhe do braço, retirando-se ambas silenciosamente, sob o olhar zombeteiro do velho egípcio, que voltara a empilhar pacotes de plantas entre numerosos vasos de substâncias estranhas.
Pouco tempo, contudo, pôde ele empregar na sua faina solitária e silenciosa.
Dentro de duas horas, nova personagem lhe batia à porta.
Araxes surpreendeu-se à vista daquele judeu insinuante que o procurava. O brilho dos olhos, o nariz característico, a harmonia dos traços israelitas, faziam daquele homem, ainda jovem, uma figura singular e sugestiva.
Era Saul, que recorria aos mesmos processos misteriosos, na ânsia de possuir, a qualquer preço, a esposa de Plínio, buscando o talismã ou o elixir miraculoso do feiticeiro, a serviço de suas pretensões descabidas.
Recebido nas mesmas circunstâncias em que o foram as duas personagens do nosso penoso drama, Saul expunha ao adivinho as suas torturas amorosas, junto daquela mulher honesta e digna.
Após a habitual concentração, já do nosso conhecimento, junto da trípode em que fazia as orações costumeiras, Araxes esboçou leve e discreto sorriso, como quem havia encontrado mais uma estranha coincidência nos seus amplos estudos da psicologia humana. Sua hesitação, todavia, durou poucos instantes, porque, em breve, se fazia ouvir com voz pausada e soturna:
- Judeu! - disse ele austeramente - louva o Deus de tuas crenças, porque tua face foi erguida do pó pelas mãos do homem que hoje te empenhas em trair... Mandam as leis severas da tua pátria que não venhas a desejar, nem mesmo por pensamentos, a mulher do teu próximo e muito menos a companheira devotada e fiel de um dos teus maiores benfeitores.
Dá um passo atrás no teu triste e mal-aventurado caminho! Houve tempo em que teu Espírito viveu no corpo de um sacerdote de Apolo, no templo glorioso de Delfos... Perseguiste uma jovem mulher dos misteres sagrados, conduzindo-a à miséria e à morte, com os teus desvarios nefandos e dolorosos. Não ouses, agora, arrancá-la dos braços destinados ao seu amparo e proteção, à face deste mundo!... Não te intrometas no destino de duas criaturas que as forças do céu talharam uma para a outra!...
O moço judeu, todavia, apesar de impressionado com aquela exortação incisiva, não seguia a orientação violenta das duas mulheres que o precederam na misteriosa visita.
Arrancando uma bolsa de moedas, acariciou-a nas mãos como a excitar a concupiscência do adivinho, exclamando com voz quase súplice:
- Araxes, eu tenho ouro... muito ouro, e dar-te-ei o que quiseres, pelo valioso auxílio da tua ciência... Pelo amor de teus deuses, consegue-me a simpatia dessa mulher e recompensar-te-ei generosamente a preciosidade dos esforços despendidos...
Os olhos do mago egípcio faiscaram ao clarão de sentimento estranho, contemplando a bolsa em forma de cornucópia, reluzente de ouro, como se a desejasse intensamente, murmurando com mais delicadeza:
- Meu amigo, essa mulher não é cobiçada tão somente por ti e suponho que deverias contribuir para que ela não se afastasse da companhia do esposo!...
- Mas, existe, então, ainda outro homem?
- Sim, revelam-me os signos do destino que essa criatura é também desejada pelo irmão do marido.
Saul fez um gesto de enfado, como quem se sentia amargamente atormentado pelos mais acerbos ciúmes, murmurando entre dentes:
- Ah! sim... agora entendo melhor a viagem precipitada de Agripa, em busca de Avênio!...
E, elevando a voz como quem estivesse jogando a derradeira cartada da sua ambição, falou com ansiedade:
- Araxes, peço-te ainda uma vez!... Faze tudo!... pagar-te-ei regiamente!...
A fronte do mago curvou-se de novo, em atitude de profunda meditação, como se o espírito buscasse, no invisível, alguma força tenebrosa, propícia aos seus sinistros desígnios.
Ao cabo de alguns minutos, tornou a dizer em tom benevolente e amigo:
- Parece que haverá uma oportunidade para a sua afeição, daqui a algum tempo!...
O moço judeu ouvia-o com angustiosa expectativa, enquanto as afirmações continuavam:
- Dizem os signos do destino que os dois cônjuges, para consolidação de sua profunda afeição, de sua confiança recíproca e progresso espiritual, estão destinados a dolorosas provas daqui a alguns anos! Dar-se-á alguma coisa que os separará dentro do próprio lar, sem que eu possa precisar o que seja. Sei, tão somente, que cumpre a ambos um grande período de ascetismo e dolorosa abnegação, no instituto sagrado da família... Nessa ocasião, talvez, quem sabe? poderá o meu amigo tentar essa afeição ardentemente cobiçada!...
- Dar-se-á, então, alguma coisa? - perguntou Saul, curioso e aflito, nas suas perquirições do assunto transcendente - mas que poderá acontecer que os separe no ambiente doméstico?
- Eu mesmo não saberia dizê-lo...
- E cada qual será obrigado a um ascetismo fiel e a uma dedicação inquebrantável?
- Manda o determinismo do destino que assim seja, mas não só o esposo, como a companheira, podem interferir nessas provas, contraindo novo débito moral, ou resgatando o passado doloroso com o preciso valor moral nos sofrimentos, empregando, no determinismo das provações purificadoras, sua boa ou má vontade... Saiba que as tendências humanas são mais fortes para o mal, tornando-se possível que as suas pretensões sejam satisfeitas nessa época.
- E quanto tempo deverei esperar para que isso aconteça? - perguntou o liberto, fundamente preocupado.
- Alguns anos.
- E será inútil tentar qualquer esforço antes disso?
- Perfeitamente inútil. Sei que o nobre cliente tem numerosos interesses numa cidade distante e é justo que, neste intervalo, cuide dos seus negócios materiais.
Saul fixou detidamente aquele homem que parecia conhecer os mais recônditos segredos da sua vida, passando as suas observações pelo crivo da consciência.
Deu-lhe a bolsa recheada, agradecendo a atenção e prometendo voltar em tempo oportuno.
Daí a alguns dias, o moço judeu, nas vésperas da despedida, aproveitando alguns minutos de pura e simples intimidade com a jovem Flávia, dirigia-lhe a palavra nestes termos:
- Nobre senhora - começou em voz quase tímida, mas com o mesmo clarão estranho de sentimentos inferiores a lhe irradiar dos olhos -, ignoro a razão do fato íntimo que vos vou revelar, mas a realidade é que vou partir para Massília, guardando a vossa imagem no mais recôndito escaninho do meu pensamento!...
- Senhor - disse-lhe Flávia Lentúlia, corando, acabrunhada -, devo viver tão só no pensamento daquele com quem os deuses iluminaram o meu destino!...
- Nobre Flávia - revidou o judeu arguto, percebendo que o golpe era prematuro e inoportuno -, minha admiração não se prende a qualquer sentimento menos digno. Para mim, sois duplamente respeitável, não somente pela vossa alta condição de patrícia, como também pela circunstância de serdes a companheira de um dos maiores benfeitores de minha vida.
Ficai tranqüila quanto às minhas palavras, porque em meu coração só existe o mais leal interesse pela vossa felicidade pessoal, junto do digno esposo que escolhestes.
Sinto por vós o que um escravo deve sentir por uma benfeitora de sua existência, já que, na minha triste condição de liberto, não posso apresentar-me à vossa generosidade com as credenciais de irmão que muito vos venera e estima.
- Está bem, senhor Saul - disse a jovem, mais aliviada -, meu marido vos considera como irmão muito caro e eu me honro de associar-me aos seus sentimentos.
- Muito vos agradeço - exclamou Saul, fingidamente -, e já que me entendeis tão bem o pensamento fraterno, é com o interesse de irmão que me dirijo à vossa alma generosa para prevenir-vos de um perigo...
- Um perigo?... - perguntou Flávia, aflita. 
- Sim. Falo-vos confidencialmente, solicitando que guardeis o máximo segredo desta confidência fraternal.
E, enquanto a jovem o escutava com a maior atenção, Saul continuou com as suas pérfidas insinuações.
- Sabeis que Plínio foi quase noivo da filha do pretor Sálvio Lentulus, vosso tio, hoje casada com Emiliano Lúcios?
- Sim... - replicou a pobre senhora, de alma oprimida.
- Pois devo avisar, como irmão, que vossa prima Aurélia, a despeito dos seus austeros compromissos matrimoniais, não renunciou ao homem de suas antigas preferências; hoje fui cientificado, por um amigo, de que ela tem recorrido a diversos feiticeiros de Roma, com o fim de reaver o seu afeto de outrora, a qualquer preço!...
Ouvindo essas pérfidas palavras, Flávia Lentúlia experimentou o primeiro espinho da sua vida conjugal, sentindo-se intimamente torturada pelo mais acerbo ciúme.
Plínio resumia todo o seu idealismo e toda a sua felicidade de mulher jovem. Depositara no seu coração todos os sonhos femininos, todas as suas melhores e mais florentes esperanças. Assaltada pela primeira contrariedade da sua vida social, na grande cidade de seus pais, sentia, naquele instante, a sede devoradora de um esclarecimento amigo, de uma palavra carinhosa que viesse restabelecer o equilíbrio do coração, agora turbado pelos primeiros dissabores. Faltava-lhe alguma coisa que pudesse completar as nobres qualidades do seu coração de mulher, alguma coisa que devia ser a atuação materna na sua educação, porque Públio Lentulus, na sua cegueira espiritual, lhe moldara o caráter no orgulho da estirpe, nas tradições vaidosas dos antepassados, sem desenvolver as suas qualidades de ponderação, que a influência de Lívia criaria, certo, para notáveis florações do sentimento.
A jovem patrícia sentiu o coração despedaçado por um ciúme quase feroz; mas, compreendendo os deveres que lhe competiam em tais conjunturas, recobrou a precisa energia moral para reagir naquele primeiro embate de provas, respondendo ao moço judeu e fazendo o possível por afetar o máximo de severa e tranqüila nobreza:
- Agradeço, penhorada, o interesse de vossa comunicação; todavia, nada me autoriza a suspeitar da consciência retilínea de meu esposo, mesmo porque Plínio resume todos os meus ideais de esposa e de mulher!
- Senhora - revidou o judeu, mordendo os lábios -, o espírito feminino, na sua fertilidade de imaginação, alheio à vida prática, pode enganar-se muitas vezes, pelas aparências...
Folgo de ouvir-vos e louvo a vossa ilimitada confiança; porém, quero fiqueis convencida de que, a qualquer tempo, encontrareis em mim um sincero defensor da vossa felicidade e das vossas virtudes!...
Isso dizendo, Saul de Gioras apresentou atenciosas despedidas, deixando a pobre moça com as suas impressões de surpresa e amargura.
Os primeiros infortúnios haviam atingido a vida conjugal de Flávia Lentúlia, sem que ela soubesse conjurar o perigo que ameaçava a sua ventura para sempre.
Nessa noite, Plínio Severus não encontrou em casa a criatura mimosa e adorável da sua dedicação e do seu amor profundo. Na intimidade da alcova, encontrou a companheira cheia de recriminações descabidas e importunas, tocada de tristezas amarguradas e incompreensíveis, verificando-se entre ambos os primeiros atritos que podem arruinar para sempre, no curso de uma vida, a felicidade de um casal, quando seus corações não se encontram suficientemente preparados para a compreensão espiritual, no instituto das provas remissoras, embora  a estrada divina de suas almas gêmeas seja um caminho glorioso para os mais elevados destinos.
Em breves dias, Saul regressava a Massília, esperançoso de concretizar algumas realizações de ordem material, de modo a regressar a Roma no menor espaço de tempo.
E a vida das nossas personagens continuava, na Capital do Império, quase com a mesma fisionomia de sempre.
O senador Lentulus prosseguia engolfado nas suas cogitações de ordem política, procurando, sempre que possível, a residência da filha, onde mantinha as mais longas palestras com Calpúrnia, sobre o passado e as necessidades do presente.
Quanto a Lívia, afastada compulsoriamente da filha, pela força das circunstâncias; longe de sua melhor amiga de outros tempos, pela incompreensão, e prosseguindo distante do esposo no ambiente dos seus afetos mais íntimos, refugiara-se na dedicada amizade de Ana, nas preces mais fervorosas e sinceras.
Diariamente, ambas procuravam orar, em dolorosa soledade, ao pé daquela mesma cruz grosseira que lhes dera Simeão no instante extremo.
Muitas vezes, ambas, em êxtase, notavam que o pequenino madeiro se toucava de luz tenuíssima, ao mesmo tempo que lhes parecia ouvir longe, no santuário do coração e dos pensamentos, exortações singulares e maravilhosas.
Afigurava-se-lhes que a voz branda e amiga do apóstolo da Samaria voltava do Reino de Jesus para ensinar-lhes a fé, o cumprimento do dever de caridade fraterna, a resignação e a piedade. Ambas choravam, então, como se nas suas almas sensíveis e carinhosas vibrassem as harmonias de um divino prelúdio da vida celeste.
Nessa época, instruída por alguns cristãos mais humildes, Ana cientificou a senhora das reuniões nas catacumbas.
Somente ali podiam reunir-se os adeptos do Cristianismo nascente, porquanto, desde os seus primeiros eventos na sociedade romana, foram as suas idéias consideradas subversivas e perversoras.
O Império fundado com Augusto, que significou a maior expressão de um Estado forte em todas as épocas do mundo, depois das conquistas democráticas da República, não tolerava nenhum agrupamento partidário, em matéria de doutrinas sociais e políticas.
Verificava-se em Roma o mesmo que hoje com as nações modernas, a oscilarem entre as mais variadas formas governamentais, ao longo do eixo dos extremismos e dentro da ignorância do homem, que teima em não compreender que a reforma das instituições tem que começar no íntimo das criaturas.
As únicas associações admitidas eram, então, as cooperativas funerárias, em vista de seus programas de piedade e proteção aos que já não podiam perturbar os poderes temporais do César.
Perseguidos pelas leis, que lhes não toleravam as idéias renovadoras; encarados com aversão pelas forças poderosas das tradições antigas, os adeptos de Jesus não ignoravam a sua futura posição de angústia e sofrimento. Alguns editos mais rigorosos os compeliam a ocultar a manifestação de crença, embora o governo de Cláudio procurasse, sempre, o máximo de ordem e equilíbrio, sem grandes excessos na execução dos seus desígnios.
Alguns companheiros mais esclarecidos na fé advogavam publicamente as suas teses, em epístolas ao sabor da época; mas, muito antes dos crimes tenebrosos de Domício Nero, a atmosfera dos cristãos primitivos era já de aflição, angústia e trabalhos penosos. Desse modo, as reuniões das catacumbas efetuavam-se periodicamente, nada obstante o seu caráter absolutamente secreto.
Grande número de apóstolos da Palestina passavam em Roma, trazendo aos irmãos da metrópole as prédicas mais edificantes e consoladoras.
Ali, no silêncio dos grandes maciços de pedra, em cavernas desprezadas pelo tempo, ouviam-se vozes profundas e moralizantes, que comentavam o Evangelho do Senhor ou encareciam as sublimidades do seu Reino, acima de todos os precários poderes da perversidade humana.
Tochas brilhantes iluminavam esses desvãos subterrâneos, que as heras protegiam, enquanto suas portas empedradas davam a impressão de angústia, tristeza e supremo abandono.
Sempre que um peregrino mais dedicado aportava à cidade, havia um aviso comum a todos os conversos.
O sinal da cruz, feito de qualquer forma, era a senha silenciosa entre os irmãos de crença, e, feito desse ou daquele modo especial, significava um aviso, cujo sentido era imediatamente compreendido.
Através dessas comunicações incessantes, Ana conhecia todo o movimento das catacumbas, colocando sua senhora a par de todos os fatos que se desenrolavam em Roma, sobre a redentora doutrina do Crucificado.
Assim é que, quando se anunciava a chegada de algum apóstolo da Galileia ou das regiões que lhe são fronteiriças, Lívia fazia questão de comparecer, fazendo-se acompanhar pela serva desvelada e fiel, atravessando os caminhos a pé, embora trajasse agora a sua indumentária patrícia, de conformidade com a autorização do marido, para professar livremente as suas crenças. Ela estava ciente de que, perante a sociedade, sua atitude representava grave perigo, mas o sacrifício de Simeão fôra um marco de luz assinalando os seus destinos na Terra. Adquirira coragem, serenidade, resignação e conhecimento de si mesma, para nunca tergiversar em detrimento da sua fé ardente e pura. Se as suas antigas relações de amizade, em Roma, atribuíam suas modificações interiores à demência; se o marido não a compreendia e Calpúrnia e Plínio cavavam, ainda mais, o grande abismo que Públio havia aberto entre ela e a filha, possuía o seu espírito, na crença, um caminho divino para fugir de todas as terrenas amarguras, sentindo que o Divino Mestre de Nazaré lhe dulcificava as úlceras da alma, compadecendo-se do seu coração retalhado de angústias. Era-lhe a fé como um archote luminoso clareando a estrada dolorosa, e do qual se irradiavam os clarões da confiança humana na Providência Divina, que transforma as provações penosas da Terra em antegozo das eternas alegrias do Infinito.

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